A boneca esquecida

(Parte 1)

“Foi ao canto
a boneca velha
que, de tão usada,
já não apresentava
a rosa vermelha
que antes enfeitava
o seu vestido branco.

Ela permaneceu quieta,
a mirar o distante,
ou a focar o nada?
Deixou romper uma lágrima,
um tanto hesitante
molhando a face calma
num rompante de tristeza secreta.

Tão solitária deve se sentir
uma pequena boneca
que, por tantos anos,
foi companheira de sonhos,
parceira de encrencas,
ser vítima de tamanho
abandono, sem ter para onde ir.

A porta se fecha numa batida
E a boneca procura para onde olhar,
pois não pode do canto se deslocar
nesse estado que a paralisa.
Tenta erguer-se, mas falta-lhe ar
Suas tentativas são tão imprecisas.
Fortemente, de angústia, ela é acometida…”

 (Parte 2)

Já são três horas e é quase tempo de ir. Dizem que é hora de revelar o adeus silente, a última lágrima, os abraços finais. Como se, de um instante para outro, ao jogar-se terra por sobre a caixa lacrada, não houvesse mais alguém de quem se despedir. Como se em algum momento alguém tivesse permitido que ela partisse.

Não houve autorização nenhuma. Mas também não roguei que ficasse. Fiquei ao seu lado, esperando algum clarão iluminar o quarto, algum tremor desequilibrar-me as pernas ou alguma voz polida reclamar por ela. Mas nada aconteceu e, distraída nesses rodeios, não a vi seguir. Divisei, de repente, seus olhos recolhidos e perdeu-se o porvir. E nada mais foi feito, a não ser a confirmação do horário, deixando-me em seguida com ela, sem conversa, sem presença.

Mas ainda não posso sair e deixar o armário abandonado, pois seus objetos não se discriminam sem proprietária, não podem simplesmente permanecer ali, no escuro, sem ao menos a lembrança do bom dia que ela sempre soube desejar.

Vou retirando cada item e somente guardo novamente em outro canto, pois não sei qual destino oferecer a uma caixa de música, um baú de cartas, um echarpe antiquado e inusitado…ou a velha boneca com seu pálido vestido.

Fora ela sua amiga de longa data. E quando contemplei, ainda menina, a sua clássica boneca de pano, eu a ambicionei com todo o esforço de meus dedos minúsculos, sacudindo-me em rancor quando ela, sem argumento, não aceitou que eu me apoderasse de seu bem mais estimado.

E agora, Maria, Joana, Laura, seja qual for o nome que um dia ela lhe batizou, não irá mais ouvir pronunciar. Você que não soube ser minha, fique aí, à beira dos dias, sem sua rosa vermelha.

Por que esse ar de angústia? Por ela não ter lhe arrastado nos braços, a fim de ver escoar junto a ela seus últimos dias? Por ela não ter lhe doado antes de deixá-la assim, sem motivo? Ora, guarde seus lamentos. Também eu não tive treino. Não fui instruída de como seria ontem ter minha mãe comigo e hoje não mais. Como é que se capacita alguém a não ter mais quem a gerou?

Pois continue aí, sem par, sem sonho, em abandono. Eu me retiro para o que é de praxe, nada mais tenho a fazer por aqui…

(Parte 3)

“Não mais de cantos me basto. Não sei viver guardada. Nunca soube dizer adeus. Portanto não o disse. E nem ouvi. E a porta se abriu novamente, tornando breve a tristeza. Esse novo lar me preenche, tal como a mãe, a filha me cerca. E eu me visto de rosas, porque não sou nem Maria, nem Joana, nem Laura. Mesmo usada, sou Rosa. Boneca de pano sem dono, senhora de mim”.

(Francine S. C. Camargo e Fernanda Camargo)

Para onde vão os avós?

– Onde você tá, menina?

Parada à porta, sem afoiteza em dar o próximo passo e adentrar a casa, ela ainda ensaiava subir o único degrau que a conduziria primeiro à cozinha e depois à sala, onde seu dia se transformaria. O cheiro de feijão cozinhando se misturava com a voz da Ofélia ensinando alguma receita; a frieza do piso e a espera prevista anunciavam que hoje, ainda hoje, ela sentiria a mesma dor. Continuar lendo

Recado

É com você que quero falar.

Você que se olhou no espelho e não vislumbrou a imagem desejada.

Você que abriu um livro ávido por informação, mas não conseguiu se concentrar na primeira linha.

Você que se conduziu por um caminho diferente do habitual, mas sequer conseguiu perder-se.

Você que calçou meias grossas e enluvou o coração, esperando por neve em uma manhã completamente ensolarada.

Você que ouviu um elogio e checou atrás de si, duvidando que o mesmo fosse direcionado para você.

Você que cantarolou sua canção favorita, mas esqueceu o refrão.

Você que leu diários e cartas do passado, mas não se lembrou exatamente de quem costumava ser.

Você que, ao acordar, fez uma longa lista mental de atitudes a tomar ao longo do dia e já são 16h e você nem saiu da cama.

Você que ouve o telefone tocar, sem atendê-lo, com medo de ter que contar meias verdades.

A você, querido amigo, tenho que dizer: espere. Sua hora não é ontem, esse já se foi. O hoje já está acabando, mas amanhã…ah, o futuro lhe trará a beleza que não sabe ver, o calor difícil de sentir, a firmeza de seus atos e a verdade sem compromisso para poder abrir os lábios, os olhos, o corpo. Apedreje as sombras, suavize seu sono e desperte mais tarde. Mas só amanhã.

Ele e ela

Ela se olha ao espelho. Admira os arcos de seu corpo, o cabelo loiro escovado caindo pela escápula, na ponta dos pés para se entrever melhor. Suas pernas: sustentação frágil e ferina. Coloca a camisola, negra, algo translúcida, acaricia  levemente a cintura e os seios, sabe ser cortante, incontestável. Parece queimar ao contato com o creme hidratante que percorre suas coxas. Embalsama-se de desejo.

Antes de abrir a porta, ouve o som do interruptor no quarto. É a luz que se apaga, ele a aguarda. Será toda para ele, mas precisa do clima, ele precisa da espera. Pára um instante, deixa ele adivinhar seu perfume, o que veste, o que traz nos olhos. Ouve o deitar na cama, suspira.

Alguns minutos depois, sai em passos vaporosos, quase flutua. Será submissa. Ouve um grito. Apreensão. Segue-se um palavrão. O quê? Ele está na cama, retesado, colérico, olhar fixo no aparelho de televisão, tendo em mãos um pequeno objeto capaz de amolecer a ambição dela, de conter sua febre: um joystick.

Não se trata de brincadeira íntima. Ele está mesmo absorto no videogame e nem a percebe deitar-se em seu lado da cama. Ela acende a luminária, agarra-se com o livro da cabeceira, coloca os óculos de leitura e prossegue. Ela também sabe se perder.

Assim avança o diálogo das duas almas, diariamente. Ele à esquerda, ela à direita. Ele, ao banho, ela com a pasta de dente. À mesa, ela café, ele leite. No carro, ele notícia, ela música. Ele dia, ela noite. Ele, berro. Ela, silêncio.

Um quer praia, outro quer sossego. Um quer folha, outro pizza. Um quer céu, outro quer terra. Um diz olá, outro adeus, como se fosse música. Sem ensaio.

Mas diversificar é preciso. Essa noite, ela não disse nada. Não quis acompanhar a emoção do joguinho, nem comentar sobre a história que lia. Nem deu boa noite ou beijinho. Adormeceu com o livro ao colo, sonhando com o personagem preferido.

Acordou, porém, na madrugada: sem livro, sem os óculos, porém coberta por edredon e um corpo quente a beijar o seu. Em seus ouvidos, foram segredadas uma ou outra palavra de amor. Suas mãos foram agarradas com sofreguidão. A TV estava desligada, dando lugar a outros sons, que somente ele e ela poderiam produzir.

Obrigado

A rajada esbofeteando seu rosto enquanto caminhava na rua, de volta para casa, tinha nome. Ela tinha certeza de que se chamava agora. Assim como o caminho prolongado, o panfleto esvoaçante, o barulho distante da sirene que seus ouvidos insistiam em captar, tudo isso era agora.

Enquanto se alastrava pelas calçadas, tinhas as mãos firmemente fechadas, numa tentativa de esmagar o que tivesse ali escondido em suas mãos. Não ousava revelar a si mesma que tinha, na verdade, as mãos vazias. Pois depois da despedida, sentiu que precisava carregar algo consigo.

Deixara-o parado, algo partido, após ambos sussurrarem em uníssono o mesmo som, sem ensaio prévio: obrigado.

– Obrigado…obrigado…obrigado…

Talvez retornasse, agora que conhecia o caminho. Por ora, comprou um sorvete e começou a devorá-lo com a fome de uma existência, saboreando com a língua morna cada pedaço, todo ele no seu hoje. Porque hoje ela sabia o que fazer.

A impostora

Queimou os olhos ao despertar. Foi quando tocou cada pálpebra com as mãos e elas se afastaram escaldantes. Já seu corpo não conseguiu se conter em si mesmo e suplicou abafado por separação: não queria mais conviver com o raciocínio febril que dominava cada manhã exaustivamente. Se nada fizesse para reformar essa rixa, seria fim, caminho em sentidos opostos, corpo e mente não mais poderiam coexistir no mesmo posto.

Sabemos nós que dentro dela reside uma impostora, uma farsa em si mesma. Não sabe sorrir, desaprendeu a chorar, que personagem desinteressante é esse que se tornou? Tanto faz se dorme ou se segue a vagar despertada, pois trata-se apenas de um corpo quente, não consumido por chamas por pouco não apagadas.

Qual foi o último pensamento que lhe surgiu ontem, às vésperas do torpor, não se lembra. Sabia que era oco, algum argumento bem vazio, que não fora capaz de concluir, pois agulhou sua pele sem trazer linha consigo, não houve remendo, veio só para cutucar. Ou para trazer a sensação de existência? Efeito avesso conseguiu, pois o sono veio e Olívia foi ficando cada vez mais longe; cada vez mais murcha, inerte, feito corpo moído e morto, pronto para o descanso final.

Com nada sonhou, disse a si mesma ao espelho, tamanha foi a impressão de falecimento. Mas ontem sim, sonhou que adorava uma estátua, uma estátua de cerca de dois metros, plúmbea, glacial e com o rosto desfigurado. Não reconheceu os traços, mas desejou atingir aquele rosto longínquo e sem alcunha, poderia estar ali para ser visto, mas também poderia ser dela. Poderia ter aparecido no sonho com o único propósito de pertencer a ela. E o que faria com a imagem, não sabia. Levaria para o quarto e deixaria ao pé da cama, para acordar todos os dias e fingir que estava sendo admirada? Mas nem olhos a figura possuía! Só queria poder tocá-la fora desse devaneio, queria mesmo senti-la viva, mesmo fria. Tinha o corpo nu. Se fosse dela, Olívia cobriria suas partes com um grande lenço, pois nem tudo necessita ser desvelado.

Seus cabelos caíam na altura dos seios, o suficiente para escondê-los caso esquecesse de colocar a blusa. Ora, por que esqueceria de se vestir!, pensou. Fez logo uma trança, seu jeito menos complicado e mais íntimo de se caracterizar e afastou a ideia de sair de casa desguarnecida. Antes de se afastar do espelho, quase teve certeza de ter divisado um clarão ao redor de si, que a fez parecer incontestável. Palpite vago foi esse, pois sem café mal podia se enxergar.

A sua casa era quase despovoada, com o essencial. As paredes brancas não pediam nenhum objeto que maculasse sua candura, como folhas em branco a serem desenhadas, mas sem pressa alguma.

O dia clamava para que ela se resfriasse aos poucos, desafogueasse os poros. Hoje ela precisava abrir a porta, passar a catraca e descer do trem com meta, sem titubeio. É hoje que ela talvez se engrene, porque o que quer é apagar as chamas e voltar ao mormaço dos dias.

Irá visitá-lo. Irá entregar-se à mesa, feito pacote rendido. Irá derramar tudo, de sombras a melindres e ele que lhe instrua, que lhe habilite a tornar-se proprietária da vida. Vou me buscar – esclareceu –, pois em algum lugar estive esquecida. Hoje seu plano era desvendar o que poderia fazer de si.

(Do conto Vim perguntar o que faço de mim – Francine S. C. Camargo e Flávio Luengo Gimenez)

Aquela moça

Sabe aquela moça sentada ao seu lado no metrô, com um livro em mãos, absorta em seu rumo? Parece a você que ela está seguindo para o trabalho ou colégio, e aproveita a ocasião para colocar em dia a leitura que não foi possível no final da noite, já que as suas pálpebras se esgotavam, pedindo encerramento. Deixe-me contar um segredo: os olhos dela atravessam as páginas, ela não está mais no metrô, pois ela não se entende em meio à multidão. Ela não queria ter que ir a lugar nenhum, ela não queria abrir os olhos hoje pela manhã e engoliu um café morno sentindo o amargor do dia.

Sabe aquela moça que cruzou algumas vezes com você no mercado, com o carrinho de compras vazio em todos as “quase colisões” e tinha em mãos um celular, do qual não tirava os olhos? Você imagina que é mais uma vítima de alguém detido em relações virtuais e talvez não consiga passar nem um minuto de seu dia sem imaginar se alguém irá curtir seu post. Uma confissão: ela olha para o aparelho em busca de uma palavra de conforto que não chega nunca, uma vez que todas as pessoas reais de seu convívio já foram embora e não se lembram mais de revê-la.

Sabe aquela moça que está a sua frente na fila do almoço e, pacientemente, escolhe o que servir em seu próprio prato e nada parece apetecê-la e, após tanta espera, chega à balança com quase nada, que o mesmo seria ter abandonado a fila e saído sem comer? Parece-lhe que é refém do peso, das dietas e constantemente lida com exercícios do qual odeia e o dramático confronto ao espelho. Tenho que lhe revelar: ela sabe que não adianta encher o prato, pois não irá conseguir deglutir nem mesmo aquele mínimo de comida que atirou nele. E tal feito tão simples não será logrado porque ela carrega na garganta o impacto de uma bola de perturbações que impedem que o novo seja engolido e, a todo momento, parece que irá ser expelida e deixá-la meio assim, completamente vazia.

Sabe aquela moça…? Ah, você não a viu no metrô, nem no mercado, muito menos no restaurante? Desculpe insistir, é que você a viu, sim, só não se afetou em olhá-la. Ela também nada viu, pois estava preocupada demais em manter-se em pé, e esse é o maior desafio com que ela afronta diariamente. Ela virou na esquina, trôpega em seus passos, enquanto você atravessou a rua e seguiu sua trilha, pois os deveres convocam e o metrô, logo mais, estará lotado. E o melhor a fazer é enevoar os olhos.

A história de cada um

Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.

(Lya Luft)

Nem é preciso que revelem o quanto a dor dilacera, o peito arfa e os dias não escoam. Diviso a tortura em cada olhar. Não, essencial isso não é, mas sei o quanto é necessário que cada de um de nós conte sua história.

Levantou-se P., portanto, mãos trêmulas, cultuando a luz da sala:

– Eu sonhava que o momento seria eterno e que, de tão incomensurável, poderia adquirir o dom de voar e seduzir a amplidão; saberia enxergar lágrima doce em cada melodia de canções favoritas. Porém, da calmaria passei rapidamente para o sopro de fúria, e agora preso aqui estou, sem mais reconhecer os limites da minha ira. Essa é a minha indignada história.

Mais doce, constrangida, todavia decidida, foi Continuar lendo

De amores e monstros

“Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”

(Nietzsche)

 

Diante da cadeira à mesa do café, riso não havia. Era um homem com sua xícara. Enquanto o café esfriava ao passar apressado dos minutos, ele aceitava o que não conhecia. Aceitava mesmo sem confiar e fazia da copa um confessionário silencioso, onde segredos não se revelariam à hora serena do dia.

Teria ele sido mutilado nos Continuar lendo

Minha querida vizinha

“Diz-me quem é o teu vizinho que te direi a fria em que te enfiaste”
(Provérbio meu, criado ‘inda agorinha)

Gostar de morar em prédio não é unanimidade. Há quem seja indiferente e se mova em passos distraídos do portão da calçada até a entrada do apartamento, sem sofrer com as etapas de passagem pelo portão A, portão B, portão C, janelinha da portaria, hall de entrada, corredor de espera pelo elevador, saída dessa caixa móvel e, por fim, a penetração na morada em si, sob olhares curiosos e insolentes de vizinhos de acesso.

Há os que, entretanto, veem-se deleitados em poder, a cada movimento, parar sem pressa alguma e abordar, com qualquer passante, assuntos relativos ao tempo, aos preços exorbitantes dos produtos no mercado ou a respeito do atraso na chegada do elevador. Será que está com defeito, vou de escada ou espero um pouco mais? Na semana passada esperei mais de dez minutos, que absurdo! Vou falar sobre isso com o síndico na próxima reunião de condomínio. Você vai, não é?

E, indubitavelmente, há os reservados que, por mais que estabeleçam relações educadas e cumprimentem a todos, sem contar anedotas pré-programadas, ainda assim fazem promessas mentais diárias para não se deparar com determinados vizinhos e não terem que improvisar relatórios pessoais sobre seus últimos feitos, como resposta aos questionários a que são submetidos.

A historieta que se segue trata dessa Continuar lendo