Fuga…fugaz…fullgas

“She’s just a girl and she’s on fire…”
(Alicia Keys, em Girl on fire)

 Entrou no ônibus com o coração acelerado, olhar fixo no chão, como de costume. Tinha medo de gente, medo de olhar no olho, medo de emitir ruídos e da sua voz em alto som. Ia acompanhada da família (pais e irmãos), de férias, em mais uma viagem à casa de parentes, mas gostava de fingir que seguia sozinha, mesmo com seus seis anos, indo passear em uma imensa cidade de luzes e cores, onde poderia ser quem quisesse e não dariam importância.

Já sentada, tratou de distrair-se diante das horas que se cumpririam. Pegou um gibi da bolsa, um pacote de ‘porcaritos’, descalçou as sapatilhas, recostou-se, à vontade, em seu banco e tentou renunciar, por instantes, ao clima que a rodeava.

Impossível. Logo à frente, um cidadão desatou a tossir em uníssono com sua companheira de viagem, tão em sintonia quanto se houvessem ensaiado a semana toda; uma senhora, no banco imediatamente atrás, entabulou uma conversa ferrenha com a vizinha a respeito do próximo capítulo da novela; choro eterno de criança, soluços de saudade, música no rádio e até uma resolução coletiva de palavras cruzadas, tudo contribuía para sua distração e, pior, sem nenhuma mescla de prazer.

Ao seu lado, sua irmã já não lhe era mais companhia, obstinada que estava em sua soneca. Fechou, então, os olhos, deixou brotar na mente a paisagem mais bonita de que se lembrava, mas todos aqueles sons se confundiam e gritavam na sua cabeça, como que chamando sua atenção.

Como sequer tinha alguma determinação para olhar para trás ou para frente ou, enfim, para qualquer lado, no ápice do processo de resignação que lhe era comum, e transcorrido já um tempo da viagem, a música veio até ela, retilínea na mente.

“Meu mundo você é quem faz, múuuuusica, letra e daaaaaança…”

Relaxou e se deliciou com o momento, enquanto a música percorria suas veias, desenhando sua forma, repleta de matizes, a entreter sua hora, seu pensamento. “Você me abre seus braços e a gente faz um paíiiiiiiiiis”

O ônibus parou e o que aconteceu foi arrasador: muitos aplausos e risinhos para o espetáculo particular que, até ali, parecia tão seu.

Corada, humilhada, com a sua timidez a bambear as pernas, ela só pôde esboçar um “ops” e levantou-se cabisbaixa rumo à rodoviária, com seus irmãos rindo atrás de si.

Estavam dispostos a morrer de paixão

“O amor mostra ao homem como é que ele deveria ser sempre. ”

(Tchekhov)

Era um modo de olhar que arruinava todas as crenças; um toque ao rosto que adejava os copos da mesa; as pernas se tocavam sutilmente, mas solapavam as estruturas e não se podia mais ficar em pé. O jeito arguto de retirar uma mecha de cabelo do rosto dela e recolocar em seu devido lugar congelava as horas.

Ambos se reuniam em prelúdio.

Rotineiramente pediam-se com algum desespero na voz, em gradações afinadas de reconhecimento. Esqueciam-se das palavras, mas se pediam sem se doar finalmente.

Porém tinham seus meios.

Estavam dispostos a morrer de paixão, caso não perecessem antes pelo dito maldito, pelo sentido mal-acabado, do encontro falido.

Dispostos a se condensar da tocante paixão, tocavam-se com as pontas dos dedos. E em pensamento, tudo ao redor cimentava, menos o amor que lhes era fuga e fluido e não era só deles.

Então esperavam, a fim de voltarem ao começo, por fim.

Eu te amo

Conteve as palavras em dezenas de ocasiões. Frasezinha de ouro, difícil de sair. Requebrava dentro de si, fazendo troça de seu engasgo, subia, subia até ali, perto da boca, cavava espaços, tentava jogar-se para fora, mas na hora certa, hora mágica, não havia como, simplesmente, não a deixava desvencilhar-se de si.

Até que era natural cantá-la nas canções, ler nos livros, ouvir nos filmes, repetir em bom som ao espelho, mas quando apoderava-se dela, quando o “eu te amo” tornava-se responsabilidade sua, ah, daí não havia como proferi-lo.

E durante um bom período de tempo leu e escutou, direcionado a ela. Calava-se, desconversava, sorria tímida, nem conseguia mais olhar no fundo dos olhos. Que era isso que sentia? Esse incêndio dentro dela, as horas distraídas, as lágrimas silentes nos momentos inusitados, ar restrito, peito apertado, coração fugido tamanha a pressa. Mas, imediatamente, retomava a consciência e a terceira pessoa que participava de seus relacionamentos – ela mesma, vendo-se de fora e rindo da cafonice da situação – tornava frustra qualquer tentativa de soltar o verbo. E o tal do “eu te amo” não nascia.

E essa matéria de assumir o amor é complicada, com ou sem Super Ego na jogada, tinha que entender o seu significado, pesar todas as possibilidades, diagnósticos diferenciais, o que sentia poderia ser só uma dor de barriga, uma crise de ansiedade, um medo bem grande de sei lá o quê ou até mesmo um infarto agudo. E dizer “eu te amo” para alguém, comprometer-se tão intimamente, não seria uma forma de doar-se e, consequentemente, perder-se de si mesma?

Porque achava que nem sempre amor precisa ser coisa explosiva, de atropelar tudo e todos, de amarrar as ações. Aceitava que tivesse seu grau de excelência em descoordenar um pouco as posturas e até desgovernar as palavras. Mas sua sanidade intelectual precisava ser preservada, então esperou.

A espera amadurece, faz crescer, não é novidade. E o amadurecimento desbanca crenças e conceitos, cria outros mais sólidos ou, como nesse caso, derrete aquela infalível confiança de julgar ter o mundo sob seu controle.

Daí que na batida do relógio em que teve absoluta certeza do que sentia, ele não estava mais na expectativa de ouvir a frase. E se foi antes que ela ousasse emitir sua curta sentença. Mas, para evitar que os lamentos pela malfadada história de amor repercutam por aqui, esclareço: estamos falando de anos nessa delonga, logo, não há crueldade, nem imoralidade nenhuma na atitude do outro. O atraso cansa e tanto a alma quanto o corpo precisam de abrigo.

As três palavras detiveram-se nas letras de músicas. Chico, Vinícius, Ivan, Djavan, Tom…muitos dedicaram formas diferentes de se declarar para ela na sua imaginação. O romance ficou na ponta da caneta, no olhar distante. E o tempo curou a ausência das palavras, como ensinamento, trouxe a proposta de deixar o “eu te amo” sair, quando houvesse satisfação em dizê-lo, quando houvesse deleite em senti-lo. Assim sendo, as palavras fluem, sem obrigação, sem demanda, sempre que ela deseja, sendo pronunciado pelas entranhas, e nunca mais sendo deixado para amanhã.

 

Encruzilhada

Há uma criança sentada na poltrona marrom, com o olhar abstraído, arrebatada pelos sonhos que apenas começou a devanear. Ela tem sede, mas não pede água. Tem fome de palavras, mas não descobriu a melhor forma de dizê-las. Pensa e esquece. Sofre e adormece. A criança não finge, não volta atrás. É uma criança solevada na paisagem e espera que entendam que mal sabe chorar.

Há uma garota diante do livro, procurando por Continuar lendo

O sorriso da lua

“Que haverá com a lua que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez?”
(Mário Quintana, em O eterno espanto)

Diz a lenda que, numa época de noite escura, quando o medo dominava as casas e encolhia as pessoas, a lua surgiu, provinda de uma bela índia que despertou inveja por ter tido coragem de enfrentar o desconhecido das trevas. E tornou-se lua, depois de subir tão alto e dormir dentro de uma nuvem, ansiando fugir do meio onde a achavam diferente de todos.

Essa estória me trouxe um ciúme bem de leve, a ponto de querer, só de vez em quando, também ser lua alta lá no céu.

Mas não queria ser descaradamente visível, redonda e pálida a arrancar suspiros e esgotar-me de serenatas de amor. Não, tampouco desejo ser lua velha, emergindo da escuridão, renascida de mistério.

O que eu quero mesmo é ser um sorriso de lua, como essa que está me olhando provocativa e simpática na amplidão. Lua branca em expansão, crescendo, nutrindo sonhos e rindo-me sem motivo nenhum, para quem quiser me ver.

Desço e volto correndo quando me cansar, ou até para me esconder do mau olhado, já que essa vida de lua deve causar uma cobiça imensa em quem cá embaixo está, como causou em mim. Mas, subo de novo quando a tristeza me abarrotar, para repousar a mente e o corpo (quem sabe em uma nuvenzinha) e olhar lá de cima para as sombras daqui de baixo e poder, é claro, entre altiva e atrevida, continuar a sorrir.

Todos temos aquele amigo

“A amizade é uma alma com dois corpos”

(Aristóteles)

Amigo faz moradia dentro da gente, cava e cava buraco até se infiltrar de vez e depois perde a chave, faz pompa na vizinhança e se serve de todas as nossas reservas de carinho e, curiosamente, para ele, esses estoques parecem nunca se acabar.

Amigo sabe tocar na gente, literalmente falando: pega na mão, dá abraço de quebrar as costelas, puxa pelo ombro, acotovela-se todo para sair na foto e dá aquele tapinha de leve no braço, raras vezes deixa hematomas, te chamando de tolo por alguma bobagem dita.

De amigo exige-se Continuar lendo

A cola da memória

O aroma da vela acesa sobre a mesa do jantar não é somente aprazível. O copo de alumínio não é só um meio de matar a sede. A música mais triste não entra simplesmente pelo ouvido e vai embora ao final do acorde. Vela, copo e canção fazem os olhos arderem de saudade, lembranças aguçadas ou disformes, memórias que nimbam a alma ou exorcizam determinadas dores, não importa.

As lembranças são Continuar lendo

Aos nossos crimes inexplicáveis

Algumas vezes é um tijolo que a vida lança na nossa cabeça. Outras vezes, a vida passa longe dessas transgressões e, no entanto, quem nos acena é a morte, com toda sua criminalidade.

– Tia, você vai ficar comigo?

Enquanto atendia em ritmo aventureiro na segunda-feira à noite de um pronto atendimento em pediatria, fui chamada para avaliar uma criança na sala de emergência, mais conhecida como sala de medicação, já que era raro algo de muita gravidade chegar ao nosso plantão.

Na maca, um menino de 5 anos de cílios gigantes, grau importante de irritabilidade, com palidez e gemência era o motivo de eu estar ali, numa apresentação típica de um quadro de choque séptico. A mãe, com o desespero Continuar lendo

A urgência das quatro horas

Até queria chegar mais cedo, mas enquanto o relógio ao pulso desvelava lentamente as horas, ela se ilhava em seus pensamentos desconcertantes e quando se via, já era passado tempo: a vida, ao longe da sua imobilidade, avançava. E hora, é sabido, não fica ao lado da gente, mas sim, tremula os cabelos tal como vento urgente e sem freio.

Por isso perdeu o trem da despedida na estação, quando não desatava se era luxo de saudade ou escabiose da alma, por não conceder ficar só. No fim, restituiu-se à antiga viela e permaneceu quieta, afincada num canto mais omisso que suas lágrimas. Continuar lendo

Vó Véia

Não seria inusitado que a casa estivesse cheia de tempos em tempos, pois visitas sempre havia e, em grandes comemorações, era inelutável ter que lidar com multidão de parentes, principalmente crianças. Vinha ela, então, do fundo do terreno de mil metros quadrados, onde sua casa de dois dormitórios era acessória, depositava seu corpo afilado pardo e alto logo à entrada, preparando a profética interrogação, assim que qualquer um acabasse de chegar:

– Mas que dia vocês vão embora? De manhã ou à tarde?

Era doce e independente, contudo. Permanecia no seu canto ao longo dos dias, limpando, cosendo e cozinhando e, vez ou outra, aparecia arrastando suas chinelas pela casa da avó, dona do terreno. Também ela era avó, só que bisa, e todos a chamavam Vó Véia.

A menina Clarice olhava recuada a entrada da casinha, não se aventurava a pisotear aquele terreno porque a panela ao fogo, a colcha de retalhos imensa toda colorida e o mistério que aqueles dois pedacinhos de terra emanavam só poderiam significar uma coisa: bruxaria. Ambas as casas, a principal e a anexa, tinham comunicação e Clarice certificava-se todas as noites de que a porta que as ligava estivesse trancada. Continuar lendo