Eu não tenho que nada

“Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer.”
 (Grande Vinícius)
 

Minha namorada é uma canção da música popular brasileira que me toca profundamente: a melodia delicada, a voz de Vinícius cortejando meus ouvidos, a súplica por amor e presença… isso é inigualável! Entretanto, peço perdão ao poetinha, com todo o respeito que dedico aos seus colóquios e rimas…mas EU NÃO TENHO QUE NADA! Continuar lendo

Definições

“A poesia não se entrega a quem a define.”

(Mario Quintana)

 

Defina. Era esse seu imperativo constante.

Antes de se expor, com o intuito de saber exatamente de que era feito o piso onde acabara de sopear, ela lançava o pedido da definição.

– Eu te amo – dizia alguém próximo.

Defina ‘amor’.

– Fiquei um pouco chateado com você.

Defina ‘chateado’.

– Não sei se gosto desses planos.

Defina ‘não saber’.

– Você tem que ler esse livro. Ele é impressionante!

Defina ‘impressionante’.

Era serviçal do definir. Às vezes recebia a explicação esperada e se contentava até a próxima brecha, mas costume era ignorarem, mudarem de assunto, encararem seus modos maçantes como um convite a deixá-la sozinha.

Mas era interesse genuíno por quem estivesse ao seu redor. Pedia que descrevessem suas metas, sonhos, vontades; que definissem suas histórias em algumas frases, seus medos, que descrevessem a si mesmos. E quem não gosta de falar de si, quem não quer dividir seus sonhos, quem não precisa contar suas histórias? E ela os ouviria.

Até que se apaixonou. E se fixou naquela vida ao lado da sua, que parecia interminável e parte de si; que parecia sua e, ao mesmo tempo, proclamava ser conquistada todos os dias. E esqueceu de pensar na interpretação das coisas, pois começou a viver o significado das coisas.

Naquele final de tarde, ela foi, no entanto, testada:

– Descreva o que você enxerga em meus olhos – ele pediu, com uma pitada de zombaria.

Ele pedia da forma mais escancarada que ela retratasse o indefinível, como quem imortaliza um momento que não tem e nem terá nome, instante em que se perde e se esquece de retornar.

Quero seus olhos em espera, despidos e abertos diante dos meus, quero seu olhar inteiro em mim, rasgando a pele por onde passa…quero seus olhos me empurrando com seu ímpeto inegável e estarei disposta a mergulhar nesse abismo…em queda livre.

A poesia súbita não surgiu. Riu da tentativa de improviso, mas não progrediu. Ficou a olhar e olhar até o sol se esconder da sua janela e a brisa que a noite trouxe alarmar a hora da separação.

Não articulou seu lirismo, nem pela boca, nem em papel, pois lábios se colaram e outras definições silenciosas se instituíram. Entre um beijo e outro, murmúrios acanhados se ouviram.

– Ah, eu não sei, eu não sei…

Feliz Ano Novo para quem já começou um novo ano

 “Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-la na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas…”
(Drummond) 

O calendário alega que faltam 12 dias para 2019. Em breve será chegada a hora das retrospectivas: de repensar os altos e baixos, as fugas e delitos, vitórias e baques. O que há para fazer melhor após a virada da folhinha? O que deixar para trás, no ano velho? Que promessas assumir na agenda em primeiro de janeiro? Dieta, vida saudável, exercício físico, leituras, trabalho, mudar o estilo, cortar o cabelo, engravidar, fazer terapia, parar de beber, viajar, abrir as asas…?

Qual é a conclusão para 2018? Como você o resumiria? Continuar lendo

Estou grávida, e agora?

O xixi foi feito, saiu meio desajeitado, tamanha era minha pressa e aflição em acertar a ponta do dispositivo pelo tempo correto. Deveria ter usado um copo, como sou imediatista, por que não me planejei para fazer o teste? Não me programei para estar aqui trancada nesse banheiro, esperando o resultado, com medo de que alguém bata à porta. Não esperava que o resultado viria em uma eternidade e meia, agora a resposta não consigo olhar, será que já deu tempo?

G R Á V I D A

O quê?????

E o dispositivo repetiu, olhando nos meus olhos: GRÁVIDA. Não disse isso em alto som, obviamente, mas aquelas palavras me fitavam, cobrando uma atitude e, em vez de me levantar do assento sanitário, só conseguia responder com outra pergunta:

E AGORA????

A primeira dúvida é como sair daqui. Enquanto decido, levanto o corpo, que automaticamente pesa agora uns vinte quilos a mais e mal percebo, faço um buraco raso no chão do lavabo, nessa caminhada em círculos que julguei que resolveria minhas dúvidas e me traria soluções. Como sair daqui se não sou mais a que entrou? Como sair daqui se entrei só e terei que sair acompanhada?

Espere, espere, espere. É necessário reavaliar, contextualizar, fazer uma pequena retrospectiva. É possível este teste estar incorreto, não sei, será que…refarei as contas…eis que noto minha imagem ao espelho e de repente me lembro que é comum relatos de que mulheres grávidas se tornam mais sábias. Venha a mim, sabedoria, preciso pensar em algo.

Ela não veio, não encontrei. Mas o que preciso?

Preciso sair ao mundo, gritar a notícia a quem for de interesse e, à medida que tomar para mim essa novidade, realizar as providências e cuidar de tudo, poderei responder com tranquilidade:

Estou grávida e bola para frente.

– Mas então você está grávida???

E faz-se a lista dos nãopodes, os ditos palpites. Não pode carregar peso, não pode correr; não pode usar salto alto e nem roupa muito justa; não pode alisar o cabelo, nem usar tintura; não pode tomar remédio, nem tomar partido; não pode comer peixe, engolir sapo, comer bola; não pode passar vontades, passar nervoso, passar aperto, passar batido.

Posso ser o quê? Posso ser quem?

Então descubro que a gestação se conta em semanas, mas muitos vão querer a data em meses e não saberei fazer contas, já que mesmo hoje não sei em que dia estamos. E avisto que aquela mancha no ultrassom, da qual não entendi nada e que a médica reconhece com naturalidade, é de fato um ser que me habita. E antevejo que esse é só o começo e que meu corpo inteiro irá se modificar, mas nenhum quilo a mais, nenhuma dilatação, nada nesse processo de embarangamento se compara à transformação que já se processa dentro de mim, pois agora não sou mais só eu, não estou mais sozinha.

Tem alguém aqui que sabe o que como escondida, que sabe o que eu sinto quando estou atrasada, que me vê enlouquecida no trânsito carregado, que sabe que tenho sono, desejos, manias, que sabe que sorrio quando quero chorar, e que choro baixinho para ninguém ouvir. O que faço com você que me olha o tempo todo?

M E D O.

Que medo de perder o bebê. Que medo de ter um bebê! Que medo de não achar tudo lindo, a melhor experiência da vida, como me dizem, que medo de me queixar e assumir que nem tudo será maravilhoso…

Então, estou aqui com minhas tantas semanas contadas na agenda, migrando de humor num passe facílimo de mágica, em que saio do mood Mestre Yoda e personifico Cersei Lannister em poucos segundos. Sou uma montanha russa de emoções, personagens e afetos.

Estamos só no começo, mas estamos em dupla. Mas agora quando me pergunto quem sou, a resposta tem sido: como eu consigo ser. Há amor rondando essa novidade? Então, serei quem quiser. Por ora, chamem-me Mãe, pois estou adorando a alguém pertencer.

A menina Paixão

Fica-se louco quando ela se abeira.

Essa menina Paixão é de uma insanidade! Má companhia, inconsequente, faz circunvoluções na rotina e não deixa ninguém dormir, produzir, comer, serenar. Companhia indesejável, vá para longe de mim!

Ela é amiga da dor, parente bem próxima da falta de sentido e só sabe agir em escala exponencial, tudo é superestimado quando a menina Paixão se aproxima, e ela não permite nem que a gente pertença a si mesmo.

Deixa em cacos, aos milhares deles.

Com um método de inserção moderno e altamente eficaz, eis que ela transforma o pensamento: deixa uma única imagem emoldurando todas as paredes da mente, imensamente, seja imenso o espaço que houver, sem hora para terminar, sem limites para demarcar, como uma decoração monotemática, monótona e insubstituível, e não há fuga de si que a desconecte.

Perde-se o domínio quando a menina chega.

Então você está comendo, dormindo, servindo, vivendo e de repente ela aparece e cria uma desordem de pensar, de cobiçar, de não saber silenciar. Faz arder quando há distância, queimar quando presença há.

Cria cegos, por fim.

E diante de tal cegueira, a menina Paixão te faz inteiro abandonar-se dentro de um par de olhos, como que mergulhado em duas esferas, em viagem interplanetária. Vai e volta de um orbe a outro, mas não escorrega, não se perde pela tangente, segue o plano, mas perde um pouco a linha, pois viagem assim termina mal, quando termina…

Porque a menina Paixão não vem em goles suaves, quietinha, sendo anunciada com discrição. Ela já aparece gritando do telhado, com velocidade de som, de passos, tirando qualquer um da sua ocupação, para que ela reine absoluta. E daí que há tanto o que fazer? Ela se espalha sem pressa de ir, mas com urgência de permanecer, de ocupar as superfícies, os poros; de amplificar os sons, de prensar todos os odores na ponta do nariz, para que fiquem eles aglutinados na memória e não possam ser expulsos nem sob medidas brutas.

Tenta-se ser esperto, burlar, mas a menina Paixão é sorrateira, sabe todos os seus planos e não se deixa enganar; de propósito, cria alguns embustes, e quando se vê, as mãos estão amarradas com corda e nó de marinheiro, os pés só andam no mesmo sentido e direção, e então, não é possível escapar, nada há para fazer.

A não ser se entregar a essa menina.

 

A boneca esquecida

(Parte 1)

“Foi ao canto
a boneca velha
que, de tão usada,
já não apresentava
a rosa vermelha
que antes enfeitava
o seu vestido branco.

Ela permaneceu quieta,
a mirar o distante,
ou a focar o nada?
Deixou romper uma lágrima,
um tanto hesitante
molhando a face calma
num rompante de tristeza secreta.

Tão solitária deve se sentir
uma pequena boneca
que, por tantos anos,
foi companheira de sonhos,
parceira de encrencas,
ser vítima de tamanho
abandono, sem ter para onde ir.

A porta se fecha numa batida
E a boneca procura para onde olhar,
pois não pode do canto se deslocar
nesse estado que a paralisa.
Tenta erguer-se, mas falta-lhe ar
Suas tentativas são tão imprecisas.
Fortemente, de angústia, ela é acometida…”

 (Parte 2)

Já são três horas e é quase tempo de ir. Dizem que é hora de revelar o adeus silente, a última lágrima, os abraços finais. Como se, de um instante para outro, ao jogar-se terra por sobre a caixa lacrada, não houvesse mais alguém de quem se despedir. Como se em algum momento alguém tivesse permitido que ela partisse.

Não houve autorização nenhuma. Mas também não roguei que ficasse. Fiquei ao seu lado, esperando algum clarão iluminar o quarto, algum tremor desequilibrar-me as pernas ou alguma voz polida reclamar por ela. Mas nada aconteceu e, distraída nesses rodeios, não a vi seguir. Divisei, de repente, seus olhos recolhidos e perdeu-se o porvir. E nada mais foi feito, a não ser a confirmação do horário, deixando-me em seguida com ela, sem conversa, sem presença.

Mas ainda não posso sair e deixar o armário abandonado, pois seus objetos não se discriminam sem proprietária, não podem simplesmente permanecer ali, no escuro, sem ao menos a lembrança do bom dia que ela sempre soube desejar.

Vou retirando cada item e somente guardo novamente em outro canto, pois não sei qual destino oferecer a uma caixa de música, um baú de cartas, um echarpe antiquado e inusitado…ou a velha boneca com seu pálido vestido.

Fora ela sua amiga de longa data. E quando contemplei, ainda menina, a sua clássica boneca de pano, eu a ambicionei com todo o esforço de meus dedos minúsculos, sacudindo-me em rancor quando ela, sem argumento, não aceitou que eu me apoderasse de seu bem mais estimado.

E agora, Maria, Joana, Laura, seja qual for o nome que um dia ela lhe batizou, não irá mais ouvir pronunciar. Você que não soube ser minha, fique aí, à beira dos dias, sem sua rosa vermelha.

Por que esse ar de angústia? Por ela não ter lhe arrastado nos braços, a fim de ver escoar junto a ela seus últimos dias? Por ela não ter lhe doado antes de deixá-la assim, sem motivo? Ora, guarde seus lamentos. Também eu não tive treino. Não fui instruída de como seria ontem ter minha mãe comigo e hoje não mais. Como é que se capacita alguém a não ter mais quem a gerou?

Pois continue aí, sem par, sem sonho, em abandono. Eu me retiro para o que é de praxe, nada mais tenho a fazer por aqui…

(Parte 3)

“Não mais de cantos me basto. Não sei viver guardada. Nunca soube dizer adeus. Portanto não o disse. E nem ouvi. E a porta se abriu novamente, tornando breve a tristeza. Esse novo lar me preenche, tal como a mãe, a filha me cerca. E eu me visto de rosas, porque não sou nem Maria, nem Joana, nem Laura. Mesmo usada, sou Rosa. Boneca de pano sem dono, senhora de mim”.

(Francine S. C. Camargo e Fernanda Camargo)

Para onde vão os avós?

– Onde você tá, menina?

Parada à porta, sem afoiteza em dar o próximo passo e adentrar a casa, ela ainda ensaiava subir o único degrau que a conduziria primeiro à cozinha e depois à sala, onde seu dia se transformaria. O cheiro de feijão cozinhando se misturava com a voz da Ofélia ensinando alguma receita; a frieza do piso e a espera prevista anunciavam que hoje, ainda hoje, ela sentiria a mesma dor. Continuar lendo

Recado

É com você que quero falar.

Você que se olhou no espelho e não vislumbrou a imagem desejada.

Você que abriu um livro ávido por informação, mas não conseguiu se concentrar na primeira linha.

Você que se conduziu por um caminho diferente do habitual, mas sequer conseguiu perder-se.

Você que calçou meias grossas e enluvou o coração, esperando por neve em uma manhã completamente ensolarada.

Você que ouviu um elogio e checou atrás de si, duvidando que o mesmo fosse direcionado para você.

Você que cantarolou sua canção favorita, mas esqueceu o refrão.

Você que leu diários e cartas do passado, mas não se lembrou exatamente de quem costumava ser.

Você que, ao acordar, fez uma longa lista mental de atitudes a tomar ao longo do dia e já são 16h e você nem saiu da cama.

Você que ouve o telefone tocar, sem atendê-lo, com medo de ter que contar meias verdades.

A você, querido amigo, tenho que dizer: espere. Sua hora não é ontem, esse já se foi. O hoje já está acabando, mas amanhã…ah, o futuro lhe trará a beleza que não sabe ver, o calor difícil de sentir, a firmeza de seus atos e a verdade sem compromisso para poder abrir os lábios, os olhos, o corpo. Apedreje as sombras, suavize seu sono e desperte mais tarde. Mas só amanhã.