Estou grávida, e agora?

O xixi foi feito, saiu meio desajeitado, tamanha era minha pressa e aflição em acertar a ponta do dispositivo pelo tempo correto. Deveria ter usado um copo, como sou imediatista, por que não me planejei para fazer o teste? Não me programei para estar aqui trancada nesse banheiro, esperando o resultado, com medo de que alguém bata à porta. Não esperava que o resultado viria em uma eternidade e meia, agora a resposta não consigo olhar, será que já deu tempo?

G R Á V I D A

O quê?????

E o dispositivo repetiu, olhando nos meus olhos: GRÁVIDA. Não disse isso em alto som, obviamente, mas aquelas palavras me fitavam, cobrando uma atitude e, em vez de me levantar do assento sanitário, só conseguia responder com outra pergunta:

E AGORA????

A primeira dúvida é como sair daqui. Enquanto decido, levanto o corpo, que automaticamente pesa agora uns vinte quilos a mais e mal percebo, faço um buraco raso no chão do lavabo, nessa caminhada em círculos que julguei que resolveria minhas dúvidas e me traria soluções. Como sair daqui se não sou mais a que entrou? Como sair daqui se entrei só e terei que sair acompanhada?

Espere, espere, espere. É necessário reavaliar, contextualizar, fazer uma pequena retrospectiva. É possível este teste estar incorreto, não sei, será que…refarei as contas…eis que noto minha imagem ao espelho e de repente me lembro que é comum relatos de que mulheres grávidas se tornam mais sábias. Venha a mim, sabedoria, preciso pensar em algo.

Ela não veio, não encontrei. Mas o que preciso?

Preciso sair ao mundo, gritar a notícia a quem for de interesse e, à medida que tomar para mim essa novidade, realizar as providências e cuidar de tudo, poderei responder com tranquilidade:

Estou grávida e bola para frente.

– Mas então você está grávida???

E faz-se a lista dos nãopodes, os ditos palpites. Não pode carregar peso, não pode correr; não pode usar salto alto e nem roupa muito justa; não pode alisar o cabelo, nem usar tintura; não pode tomar remédio, nem tomar partido; não pode comer peixe, engolir sapo, comer bola; não pode passar vontades, passar nervoso, passar aperto, passar batido.

Posso ser o quê? Posso ser quem?

Então descubro que a gestação se conta em semanas, mas muitos vão querer a data em meses e não saberei fazer contas, já que mesmo hoje não sei em que dia estamos. E avisto que aquela mancha no ultrassom, da qual não entendi nada e que a médica reconhece com naturalidade, é de fato um ser que me habita. E antevejo que esse é só o começo e que meu corpo inteiro irá se modificar, mas nenhum quilo a mais, nenhuma dilatação, nada nesse processo de embarangamento se compara à transformação que já se processa dentro de mim, pois agora não sou mais só eu, não estou mais sozinha.

Tem alguém aqui que sabe o que como escondida, que sabe o que eu sinto quando estou atrasada, que me vê enlouquecida no trânsito carregado, que sabe que tenho sono, desejos, manias, que sabe que sorrio quando quero chorar, e que choro baixinho para ninguém ouvir. O que faço com você que me olha o tempo todo?

M E D O.

Que medo de perder o bebê. Que medo de ter um bebê! Que medo de não achar tudo lindo, a melhor experiência da vida, como me dizem, que medo de me queixar e assumir que nem tudo será maravilhoso…

Então, estou aqui com minhas tantas semanas contadas na agenda, migrando de humor num passe facílimo de mágica, em que saio do mood Mestre Yoda e personifico Cersei Lannister em poucos segundos. Sou uma montanha russa de emoções, personagens e afetos.

Estamos só no começo, mas estamos em dupla. Mas agora quando me pergunto quem sou, a resposta tem sido: como eu consigo ser. Há amor rondando essa novidade? Então, serei quem quiser. Por ora, chamem-me Mãe, pois estou adorando a alguém pertencer.

A menina Paixão

Fica-se louco quando ela se abeira.

Essa menina Paixão é de uma insanidade! Má companhia, inconsequente, faz circunvoluções na rotina e não deixa ninguém dormir, produzir, comer, serenar. Companhia indesejável, vá para longe de mim!

Ela é amiga da dor, parente bem próxima da falta de sentido e só sabe agir em escala exponencial, tudo é superestimado quando a menina Paixão se aproxima, e ela não permite nem que a gente pertença a si mesmo.

Deixa em cacos, aos milhares deles.

Com um método de inserção moderno e altamente eficaz, eis que ela transforma o pensamento: deixa uma única imagem emoldurando todas as paredes da mente, imensamente, seja imenso o espaço que houver, sem hora para terminar, sem limites para demarcar, como uma decoração monotemática, monótona e insubstituível, e não há fuga de si que a desconecte.

Perde-se o domínio quando a menina chega.

Então você está comendo, dormindo, servindo, vivendo e de repente ela aparece e cria uma desordem de pensar, de cobiçar, de não saber silenciar. Faz arder quando há distância, queimar quando presença há.

Cria cegos, por fim.

E diante de tal cegueira, a menina Paixão te faz inteiro abandonar-se dentro de um par de olhos, como que mergulhado em duas esferas, em viagem interplanetária. Vai e volta de um orbe a outro, mas não escorrega, não se perde pela tangente, segue o plano, mas perde um pouco a linha, pois viagem assim termina mal, quando termina…

Porque a menina Paixão não vem em goles suaves, quietinha, sendo anunciada com discrição. Ela já aparece gritando do telhado, com velocidade de som, de passos, tirando qualquer um da sua ocupação, para que ela reine absoluta. E daí que há tanto o que fazer? Ela se espalha sem pressa de ir, mas com urgência de permanecer, de ocupar as superfícies, os poros; de amplificar os sons, de prensar todos os odores na ponta do nariz, para que fiquem eles aglutinados na memória e não possam ser expulsos nem sob medidas brutas.

Tenta-se ser esperto, burlar, mas a menina Paixão é sorrateira, sabe todos os seus planos e não se deixa enganar; de propósito, cria alguns embustes, e quando se vê, as mãos estão amarradas com corda e nó de marinheiro, os pés só andam no mesmo sentido e direção, e então, não é possível escapar, nada há para fazer.

A não ser se entregar a essa menina.

 

A boneca esquecida

(Parte 1)

“Foi ao canto
a boneca velha
que, de tão usada,
já não apresentava
a rosa vermelha
que antes enfeitava
o seu vestido branco.

Ela permaneceu quieta,
a mirar o distante,
ou a focar o nada?
Deixou romper uma lágrima,
um tanto hesitante
molhando a face calma
num rompante de tristeza secreta.

Tão solitária deve se sentir
uma pequena boneca
que, por tantos anos,
foi companheira de sonhos,
parceira de encrencas,
ser vítima de tamanho
abandono, sem ter para onde ir.

A porta se fecha numa batida
E a boneca procura para onde olhar,
pois não pode do canto se deslocar
nesse estado que a paralisa.
Tenta erguer-se, mas falta-lhe ar
Suas tentativas são tão imprecisas.
Fortemente, de angústia, ela é acometida…”

 (Parte 2)

Já são três horas e é quase tempo de ir. Dizem que é hora de revelar o adeus silente, a última lágrima, os abraços finais. Como se, de um instante para outro, ao jogar-se terra por sobre a caixa lacrada, não houvesse mais alguém de quem se despedir. Como se em algum momento alguém tivesse permitido que ela partisse.

Não houve autorização nenhuma. Mas também não roguei que ficasse. Fiquei ao seu lado, esperando algum clarão iluminar o quarto, algum tremor desequilibrar-me as pernas ou alguma voz polida reclamar por ela. Mas nada aconteceu e, distraída nesses rodeios, não a vi seguir. Divisei, de repente, seus olhos recolhidos e perdeu-se o porvir. E nada mais foi feito, a não ser a confirmação do horário, deixando-me em seguida com ela, sem conversa, sem presença.

Mas ainda não posso sair e deixar o armário abandonado, pois seus objetos não se discriminam sem proprietária, não podem simplesmente permanecer ali, no escuro, sem ao menos a lembrança do bom dia que ela sempre soube desejar.

Vou retirando cada item e somente guardo novamente em outro canto, pois não sei qual destino oferecer a uma caixa de música, um baú de cartas, um echarpe antiquado e inusitado…ou a velha boneca com seu pálido vestido.

Fora ela sua amiga de longa data. E quando contemplei, ainda menina, a sua clássica boneca de pano, eu a ambicionei com todo o esforço de meus dedos minúsculos, sacudindo-me em rancor quando ela, sem argumento, não aceitou que eu me apoderasse de seu bem mais estimado.

E agora, Maria, Joana, Laura, seja qual for o nome que um dia ela lhe batizou, não irá mais ouvir pronunciar. Você que não soube ser minha, fique aí, à beira dos dias, sem sua rosa vermelha.

Por que esse ar de angústia? Por ela não ter lhe arrastado nos braços, a fim de ver escoar junto a ela seus últimos dias? Por ela não ter lhe doado antes de deixá-la assim, sem motivo? Ora, guarde seus lamentos. Também eu não tive treino. Não fui instruída de como seria ontem ter minha mãe comigo e hoje não mais. Como é que se capacita alguém a não ter mais quem a gerou?

Pois continue aí, sem par, sem sonho, em abandono. Eu me retiro para o que é de praxe, nada mais tenho a fazer por aqui…

(Parte 3)

“Não mais de cantos me basto. Não sei viver guardada. Nunca soube dizer adeus. Portanto não o disse. E nem ouvi. E a porta se abriu novamente, tornando breve a tristeza. Esse novo lar me preenche, tal como a mãe, a filha me cerca. E eu me visto de rosas, porque não sou nem Maria, nem Joana, nem Laura. Mesmo usada, sou Rosa. Boneca de pano sem dono, senhora de mim”.

(Francine S. C. Camargo e Fernanda Camargo)

Para onde vão os avós?

– Onde você tá, menina?

Parada à porta, sem afoiteza em dar o próximo passo e adentrar a casa, ela ainda ensaiava subir o único degrau que a conduziria primeiro à cozinha e depois à sala, onde seu dia se transformaria. O cheiro de feijão cozinhando se misturava com a voz da Ofélia ensinando alguma receita; a frieza do piso e a espera prevista anunciavam que hoje, ainda hoje, ela sentiria a mesma dor. Continuar lendo

Recado

É com você que quero falar.

Você que se olhou no espelho e não vislumbrou a imagem desejada.

Você que abriu um livro ávido por informação, mas não conseguiu se concentrar na primeira linha.

Você que se conduziu por um caminho diferente do habitual, mas sequer conseguiu perder-se.

Você que calçou meias grossas e enluvou o coração, esperando por neve em uma manhã completamente ensolarada.

Você que ouviu um elogio e checou atrás de si, duvidando que o mesmo fosse direcionado para você.

Você que cantarolou sua canção favorita, mas esqueceu o refrão.

Você que leu diários e cartas do passado, mas não se lembrou exatamente de quem costumava ser.

Você que, ao acordar, fez uma longa lista mental de atitudes a tomar ao longo do dia e já são 16h e você nem saiu da cama.

Você que ouve o telefone tocar, sem atendê-lo, com medo de ter que contar meias verdades.

A você, querido amigo, tenho que dizer: espere. Sua hora não é ontem, esse já se foi. O hoje já está acabando, mas amanhã…ah, o futuro lhe trará a beleza que não sabe ver, o calor difícil de sentir, a firmeza de seus atos e a verdade sem compromisso para poder abrir os lábios, os olhos, o corpo. Apedreje as sombras, suavize seu sono e desperte mais tarde. Mas só amanhã.

Ele e ela

Ela se olha ao espelho. Admira os arcos de seu corpo, o cabelo loiro escovado caindo pela escápula, na ponta dos pés para se entrever melhor. Suas pernas: sustentação frágil e ferina. Coloca a camisola, negra, algo translúcida, acaricia  levemente a cintura e os seios, sabe ser cortante, incontestável. Parece queimar ao contato com o creme hidratante que percorre suas coxas. Embalsama-se de desejo.

Antes de abrir a porta, ouve o som do interruptor no quarto. É a luz que se apaga, ele a aguarda. Será toda para ele, mas precisa do clima, ele precisa da espera. Pára um instante, deixa ele adivinhar seu perfume, o que veste, o que traz nos olhos. Ouve o deitar na cama, suspira.

Alguns minutos depois, sai em passos vaporosos, quase flutua. Será submissa. Ouve um grito. Apreensão. Segue-se um palavrão. O quê? Ele está na cama, retesado, colérico, olhar fixo no aparelho de televisão, tendo em mãos um pequeno objeto capaz de amolecer a ambição dela, de conter sua febre: um joystick.

Não se trata de brincadeira íntima. Ele está mesmo absorto no videogame e nem a percebe deitar-se em seu lado da cama. Ela acende a luminária, agarra-se com o livro da cabeceira, coloca os óculos de leitura e prossegue. Ela também sabe se perder.

Assim avança o diálogo das duas almas, diariamente. Ele à esquerda, ela à direita. Ele, ao banho, ela com a pasta de dente. À mesa, ela café, ele leite. No carro, ele notícia, ela música. Ele dia, ela noite. Ele, berro. Ela, silêncio.

Um quer praia, outro quer sossego. Um quer folha, outro pizza. Um quer céu, outro quer terra. Um diz olá, outro adeus, como se fosse música. Sem ensaio.

Mas diversificar é preciso. Essa noite, ela não disse nada. Não quis acompanhar a emoção do joguinho, nem comentar sobre a história que lia. Nem deu boa noite ou beijinho. Adormeceu com o livro ao colo, sonhando com o personagem preferido.

Acordou, porém, na madrugada: sem livro, sem os óculos, porém coberta por edredon e um corpo quente a beijar o seu. Em seus ouvidos, foram segredadas uma ou outra palavra de amor. Suas mãos foram agarradas com sofreguidão. A TV estava desligada, dando lugar a outros sons, que somente ele e ela poderiam produzir.

Obrigado

A rajada esbofeteando seu rosto enquanto caminhava na rua, de volta para casa, tinha nome. Ela tinha certeza de que se chamava agora. Assim como o caminho prolongado, o panfleto esvoaçante, o barulho distante da sirene que seus ouvidos insistiam em captar, tudo isso era agora.

Enquanto se alastrava pelas calçadas, tinhas as mãos firmemente fechadas, numa tentativa de esmagar o que tivesse ali escondido em suas mãos. Não ousava revelar a si mesma que tinha, na verdade, as mãos vazias. Pois depois da despedida, sentiu que precisava carregar algo consigo.

Deixara-o parado, algo partido, após ambos sussurrarem em uníssono o mesmo som, sem ensaio prévio: obrigado.

– Obrigado…obrigado…obrigado…

Talvez retornasse, agora que conhecia o caminho. Por ora, comprou um sorvete e começou a devorá-lo com a fome de uma existência, saboreando com a língua morna cada pedaço, todo ele no seu hoje. Porque hoje ela sabia o que fazer.

A impostora

Queimou os olhos ao despertar. Foi quando tocou cada pálpebra com as mãos e elas se afastaram escaldantes. Já seu corpo não conseguiu se conter em si mesmo e suplicou abafado por separação: não queria mais conviver com o raciocínio febril que dominava cada manhã exaustivamente. Se nada fizesse para reformar essa rixa, seria fim, caminho em sentidos opostos, corpo e mente não mais poderiam coexistir no mesmo posto.

Sabemos nós que dentro dela reside uma impostora, uma farsa em si mesma. Não sabe sorrir, desaprendeu a chorar, que personagem desinteressante é esse que se tornou? Tanto faz se dorme ou se segue a vagar despertada, pois trata-se apenas de um corpo quente, não consumido por chamas por pouco não apagadas.

Qual foi o último pensamento que lhe surgiu ontem, às vésperas do torpor, não se lembra. Sabia que era oco, algum argumento bem vazio, que não fora capaz de concluir, pois agulhou sua pele sem trazer linha consigo, não houve remendo, veio só para cutucar. Ou para trazer a sensação de existência? Efeito avesso conseguiu, pois o sono veio e Olívia foi ficando cada vez mais longe; cada vez mais murcha, inerte, feito corpo moído e morto, pronto para o descanso final.

Com nada sonhou, disse a si mesma ao espelho, tamanha foi a impressão de falecimento. Mas ontem sim, sonhou que adorava uma estátua, uma estátua de cerca de dois metros, plúmbea, glacial e com o rosto desfigurado. Não reconheceu os traços, mas desejou atingir aquele rosto longínquo e sem alcunha, poderia estar ali para ser visto, mas também poderia ser dela. Poderia ter aparecido no sonho com o único propósito de pertencer a ela. E o que faria com a imagem, não sabia. Levaria para o quarto e deixaria ao pé da cama, para acordar todos os dias e fingir que estava sendo admirada? Mas nem olhos a figura possuía! Só queria poder tocá-la fora desse devaneio, queria mesmo senti-la viva, mesmo fria. Tinha o corpo nu. Se fosse dela, Olívia cobriria suas partes com um grande lenço, pois nem tudo necessita ser desvelado.

Seus cabelos caíam na altura dos seios, o suficiente para escondê-los caso esquecesse de colocar a blusa. Ora, por que esqueceria de se vestir!, pensou. Fez logo uma trança, seu jeito menos complicado e mais íntimo de se caracterizar e afastou a ideia de sair de casa desguarnecida. Antes de se afastar do espelho, quase teve certeza de ter divisado um clarão ao redor de si, que a fez parecer incontestável. Palpite vago foi esse, pois sem café mal podia se enxergar.

A sua casa era quase despovoada, com o essencial. As paredes brancas não pediam nenhum objeto que maculasse sua candura, como folhas em branco a serem desenhadas, mas sem pressa alguma.

O dia clamava para que ela se resfriasse aos poucos, desafogueasse os poros. Hoje ela precisava abrir a porta, passar a catraca e descer do trem com meta, sem titubeio. É hoje que ela talvez se engrene, porque o que quer é apagar as chamas e voltar ao mormaço dos dias.

Irá visitá-lo. Irá entregar-se à mesa, feito pacote rendido. Irá derramar tudo, de sombras a melindres e ele que lhe instrua, que lhe habilite a tornar-se proprietária da vida. Vou me buscar – esclareceu –, pois em algum lugar estive esquecida. Hoje seu plano era desvendar o que poderia fazer de si.

(Do conto Vim perguntar o que faço de mim – Francine S. C. Camargo e Flávio Luengo Gimenez)

Aquela moça

Sabe aquela moça sentada ao seu lado no metrô, com um livro em mãos, absorta em seu rumo? Parece a você que ela está seguindo para o trabalho ou colégio, e aproveita a ocasião para colocar em dia a leitura que não foi possível no final da noite, já que as suas pálpebras se esgotavam, pedindo encerramento. Deixe-me contar um segredo: os olhos dela atravessam as páginas, ela não está mais no metrô, pois ela não se entende em meio à multidão. Ela não queria ter que ir a lugar nenhum, ela não queria abrir os olhos hoje pela manhã e engoliu um café morno sentindo o amargor do dia.

Sabe aquela moça que cruzou algumas vezes com você no mercado, com o carrinho de compras vazio em todos as “quase colisões” e tinha em mãos um celular, do qual não tirava os olhos? Você imagina que é mais uma vítima de alguém detido em relações virtuais e talvez não consiga passar nem um minuto de seu dia sem imaginar se alguém irá curtir seu post. Uma confissão: ela olha para o aparelho em busca de uma palavra de conforto que não chega nunca, uma vez que todas as pessoas reais de seu convívio já foram embora e não se lembram mais de revê-la.

Sabe aquela moça que está a sua frente na fila do almoço e, pacientemente, escolhe o que servir em seu próprio prato e nada parece apetecê-la e, após tanta espera, chega à balança com quase nada, que o mesmo seria ter abandonado a fila e saído sem comer? Parece-lhe que é refém do peso, das dietas e constantemente lida com exercícios do qual odeia e o dramático confronto ao espelho. Tenho que lhe revelar: ela sabe que não adianta encher o prato, pois não irá conseguir deglutir nem mesmo aquele mínimo de comida que atirou nele. E tal feito tão simples não será logrado porque ela carrega na garganta o impacto de uma bola de perturbações que impedem que o novo seja engolido e, a todo momento, parece que irá ser expelida e deixá-la meio assim, completamente vazia.

Sabe aquela moça…? Ah, você não a viu no metrô, nem no mercado, muito menos no restaurante? Desculpe insistir, é que você a viu, sim, só não se afetou em olhá-la. Ela também nada viu, pois estava preocupada demais em manter-se em pé, e esse é o maior desafio com que ela afronta diariamente. Ela virou na esquina, trôpega em seus passos, enquanto você atravessou a rua e seguiu sua trilha, pois os deveres convocam e o metrô, logo mais, estará lotado. E o melhor a fazer é enevoar os olhos.

A história de cada um

Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.

(Lya Luft)

Nem é preciso que revelem o quanto a dor dilacera, o peito arfa e os dias não escoam. Diviso a tortura em cada olhar. Não, essencial isso não é, mas sei o quanto é necessário que cada de um de nós conte sua história.

Levantou-se P., portanto, mãos trêmulas, cultuando a luz da sala:

– Eu sonhava que o momento seria eterno e que, de tão incomensurável, poderia adquirir o dom de voar e seduzir a amplidão; saberia enxergar lágrima doce em cada melodia de canções favoritas. Porém, da calmaria passei rapidamente para o sopro de fúria, e agora preso aqui estou, sem mais reconhecer os limites da minha ira. Essa é a minha indignada história.

Mais doce, constrangida, todavia decidida, foi Continuar lendo