Ria seu riso

“Livrai-me de tudo que me trava o riso.”
(Caio Fernando Abreu)

 

Por onde andava, ninguém sabia ao certo, havia muito que não concedia o ar de sua graça, graça mesmo, por inteiro. Atrás das responsabilidades, boletos, relações enganosas e eclipses do dia, o Riso se perdera. Não se mostrava na rotina, não aparecia nas horas escuras, nem no calor das piadas, já que era mais fácil ser sério, era mais fácil ser brando, era mais simples ser vazio. Continuar lendo

Para sempre

Parece que a ouvi chamar. Então, logo obedeci. Você não podia me ver, nem eu sequer adivinharia seu rosto, tão similar ao meu. Porém sua voz dormente e seu toque ainda distante acalmavam-me os dias, despertando o desejo de surgir e nascer para apurar quem de fato  era você.

Logo cheguei, apesar dos rodeios. Há quem diga que me arremessei nos seus braços. Hoje penso que foi você quem me alcançou, refugiando-me nessa fusão até o fim dos meus dias.

Tanto chorei e a vi mortificada a policiar suas próprias lágrimas. Tanto me retive acordado, à procura de um conforto que eu nem bem entendia e a vi ali a tentar estabilizar as pálpebras combalidas.

Então, compreendi onde estava. Não sabia nomear, mas sabia que era minha, que tudo era para mim e que não estava a viver essa vida sozinho.

Dessa forma, foi mais fácil sorrir. E quase me dilacerar em gargalhadas, pois também você se abria em riso rasgado para refletir minhas conquistas.

Você me viu rolar, cair para o lado, tropeçar. Testemunhou os primeiros desconfortos, as grandes dúvidas dos limites da normalidade e contestou até que ponto garantiria a sua própria lucidez.

E sem qualquer abecedário, estávamos ali numa nova realidade por vezes assustadora, outras pulsátil, em que trocamos longos discursos mesmo sem dizer uma palavra e li nos seus olhos a hesitação do “e agora?”

E aquela hora você começou a me formar, deixando que eu me modelasse. Naquela hora você me influenciou, embora fosse eu quem decidisse ao fim. Naquela hora você criou um roteiro, mas deixou que eu entrasse em cena como estrela, sendo sempre coadjuvante. Naquela hora você me deixou seguir, desprendendo-se de minhas mãos, sem, no entanto, desconectar-se de mim.

Sei que travou uma luta contínua para se renovar, para melhor lapidar esse novo nome que ganhou. Mãe.

Então, agora sou eu que a chamo. Para sempre.

Fracasse melhor

“O fracasso quebra as almas pequenas e engrandece as grandes, assim como o vento apaga a vela e atiça o fogo a floresta”

(Benjamin Franklin)

 Pois bem, você fracassou. Logo, é hora de recomeçar. Parabéns a você que tentou, e que o medo de fracassar novamente não o atinja.

É imprescindível extirpar a velha cultura do fracasso, como se fosse imperdoável errar, tanto quanto acertar, segundo o grande Millor. A incerteza de um resultado é paralítica, trava as pernas, os olhos, as mãos, freia até os sentidos, porque faz parte da humanidade fugir do erro. E, por conta disso, pode-se ficar estagnado diariamente. “Se for para fazer algo, que seja perfeito”. Perfeccionismo pode ser um castigo quando vem acompanhado de sofrimento, cobrança e abandono.

Quando algo deixa de ser feito por medo da frustração de não obter êxito, a inspiração sai da casa em busca de outra mente, a criatividade fica tolhida e uma oportunidade de inovar, experimentar, partir para o novo deixa de ser plenamente vivida.

Fracassar é um prestígio, pois envolve um risco, calculado ou não, que serve de treinamento, aprendizado, por mais que a frase seja batida. É, no mínimo, um caminho a menos a escolher, pois o que frustrou já será velho conhecido e pode-se falhar, falhar, falhar, dali por diante até acertar, pois a dor é temporária, professora, não haverá de manter ninguém ao chão por longo tempo, nem enterrar expectativas e sonhos.  Fracassar é só um caminho com volta, desvio, uma prorrogação do jogo que terminou empatado.

De fracasso em fracasso, é possível ir bem longe, se o entusiasmo fizer parte da sua vida. Não há tombo ou zombaria alheia que desperdicem uma tentativa se os olhos estiverem brilhando, se houver paixão nessa busca, se as pernas trançarem de tanta emoção quando quase se atinge o alvo.

O sucesso é um processo que passa por naufragar. Ajustar a prática com os planos de primeira é evento raro e pouco frutífero. Viver de maneira imperfeita, comprando os riscos, trucando os desafios é tornar concreto nosso sonho, por mais subjetiva que seja a mentalidade que nos guie.

Esteja pronto para errar, pivotar se for necessário, mudando o rumo e vivendo cada fracasso por completo. Ele é seu e a responsabilidade de em que ele será catalisado é sua.

Seja louco para errar, no melhor método que conseguir.

Quando você almeja a lua, será atingido pela rejeição, bem antes de alcançar qualquer estrela”

(Lisa Curtis)

A dona do verbo

Era uma vez uma garotinha que não se fazia entender por palavras. Isso mesmo. Emitia o som em porte adequado, desfrutava de acertado vocabulário, pronunciava-se em relação a qualquer assunto, falava mesmo pelos cotovelos e discutia, muitas vezes, com a própria imagem ao espelho. Mas, curiosamente e ninguém sabia explicar o porquê, não se podia compreender o que ela dizia, por maior que fosse o seu entusiasmo ou a disposição e empenho do interlocutor.

Apesar desse detalhe quase irrelevante da falta de comunicação, ela continuava senhora de si e expressava-se da maneira como conseguia. Experimentava verdadeira paixão pelos vocábulos, enxergava letras no ar e tentava apanhá-las, em fantasia, para formar seu nome. É fato que preferia o A e o M, tinha certo medo do Z e do H e ria-se toda quando o I ensaiava sair de sua boca.

Complicado era decifrá-la quando seus olhinhos aflitos algo solicitavam, quando esperava por uma resposta. Chorava um pouquinho, mas em seguida, novamente um turbilhão de frases saía de si,  para talvez um dia fazer sentido.

Muitas vezes, solicitou à mãe, através de gestos, que lhe comprasse uma nova voz ou algum chá de entendimento no mercado, na loja da esquina, no centro da cidade, na loja online da China. Não era possível! – Em algum lugar deveria haver a sua solução em troca de algumas moedas! Mas sua mãe não achava em parte alguma.

Até que em um dia, a menininha se enfastiou e resolveu parar de falar, se é que de fala podemos chamar a sua constante tentativa frustrada de conversação. Cerrou os lábios, cruzou os braços e negou-se a ser a pseudo-tagarela de antes. Todos, obviamente, estranharam esse comportamento de resistência e aprisionamento de si mesma. Porque, ao não se importar mais em se fazer ouvir, ninguém mais sabia como acessá-la.

Os dias se tornaram mais silenciosos, solitários e menos inesperados. Perdeu-se o decifrar e até o humor encoberto que pairava ao redor daquelas palavras ininteligíveis. E eis que o mundo que a cercava calou-se junto com a garota.

Silêncio. Silêncio. Silêncio. Não, assim, já era demais! Tudo bem ela não falar, mas ninguém mais??? Não, isso não estava certo. Foi o que ela pensou ao olhar para cima, para os lados, para frente e para trás e enxergar todos tão aborrecidos, lastimando a transformação da criança, de barulhenta para taciturna.

– Ei, vocês! Parem com isso! Ninguém mais vai conversar comigo?

Silêncio. Silêncio. Silêncio.

– Ora bolas! Como se fizesse algum sentido o que estou dizendo!

Os rostos e expressões de  todos próximos a ela denunciavam: o que fluía dela tinha sentido sim. Naquela hora, a menininha sem palavras dava lugar à chefe interina das orações e não havia pessoa no mundo que não distinguisse cada letrinha de suas sentenças.

E eis que, desse dia em diante, qualquer um, vindo inclusive de terras distantes, vinha curvar-se diante dela e ouvir o que a voz mágica da pequena dona do verbo tinha a manifestar.

 

 

 

A promessa da primavera

Em cada vida, há uma primavera. Mas ela ainda está por vir.

Hoje a terra ainda é fria, o ar nos arrepia e faz buscar abrigo. Mas o Sol aumenta sua força a cada dia e logo mais seus raios morosos reinarão em plenitude.

As trevas que nimbam as noites se descortinarão para a luz até ontem inconquistável, fazendo com que a vida desperte desse sono de inverno.

Hoje é o primeiro dia em que a criança começa a crescer desenfreadamente dentro de cada um, com exalação do novo.

Hoje se carrega o poder de transformar esperança em veracidade, pensamentos mortiços em escombros do passado somente.

É tempo de ressurgir, renovar.

É tempo de varrer, lavar e purificar.

A partir de hoje estejamos atentos às inspirações, já com as gavetas internas limpas, após a reclusão que o inverno caucionou.

É o hoje de ocupar os espaços vazios com o que vem no seu tempo, no tempo que vier.

É tempo de dizer: te esperarei, Primavera, e quando chegar, fique o tempo que puder.

Olhando o vazio

Ei, pequeninos!

Desculpem-me por ter lhes trazido para essa encrenca.

O mundo está um embaraço só e é tão complicado voltar a acreditar: confiar nas pessoas, fiar-se às próprias ideias, seguir em frente sem fulgurar em vazio…

Parece que a hora está errada quando encaro o relógio. E, no entanto, ele só mostra que o tempo urge, que já correu, que a vida é ida.

Quero muito ensinar sobre coragem, sobre dizer sim, mesmo quando é o não que me congela o coração, mesmo quando sou eu que travo na porta de entrada.

Então há um segredo repetido como mantra: quem tenta, não consegue! Quem tenta, não consegue! Quem tenta, não consegue! Acreditem, vocês sempre triunfarão, de uma forma ou de outra, pois são feitos da matéria de sonho real. Eu, porém, que flutuo sem parar, ainda tenho receio de cair.

E vocês perguntam “e agora?” e a minha vontade é repassar a questão para alguém que saiba respondê-la. Ora, mas eu agarro esse agora fortemente nos braços e dele faço nosso presente, presentemente.

O mundo está em desordem, eu sei, mas a gente pode arrumar a casa, deixar o quintal limpo, pois se não nos encontrarmos aqui dentro, se não nos reconhecermos em nossa intimidade, lá fora toda essa insensatez não nos acolherá.