Fracasse melhor

“O fracasso quebra as almas pequenas e engrandece as grandes, assim como o vento apaga a vela e atiça o fogo a floresta”

(Benjamin Franklin)

 Pois bem, você fracassou. Logo, é hora de recomeçar. Parabéns a você que tentou, e que o medo de fracassar novamente não o atinja.

É imprescindível extirpar a velha cultura do fracasso, como se fosse imperdoável errar, tanto quanto acertar, segundo o grande Millor. A incerteza de um resultado é paralítica, trava as pernas, os olhos, as mãos, freia até os sentidos, porque faz parte da humanidade fugir do erro. E, por conta disso, pode-se ficar estagnado diariamente. “Se for para fazer algo, que seja perfeito”. Perfeccionismo pode ser um castigo quando vem acompanhado de sofrimento, cobrança e abandono.

Quando algo deixa de ser feito por medo da frustração de não obter êxito, a inspiração sai da casa em busca de outra mente, a criatividade fica tolhida e uma oportunidade de inovar, experimentar, partir para o novo deixa de ser plenamente vivida.

Fracassar é um prestígio, pois envolve um risco, calculado ou não, que serve de treinamento, aprendizado, por mais que a frase seja batida. É, no mínimo, um caminho a menos a escolher, pois o que frustrou já será velho conhecido e pode-se falhar, falhar, falhar, dali por diante até acertar, pois a dor é temporária, professora, não haverá de manter ninguém ao chão por longo tempo, nem enterrar expectativas e sonhos.  Fracassar é só um caminho com volta, desvio, uma prorrogação do jogo que terminou empatado.

De fracasso em fracasso, é possível ir bem longe, se o entusiasmo fizer parte da sua vida. Não há tombo ou zombaria alheia que desperdicem uma tentativa se os olhos estiverem brilhando, se houver paixão nessa busca, se as pernas trançarem de tanta emoção quando quase se atinge o alvo.

O sucesso é um processo que passa por naufragar. Ajustar a prática com os planos de primeira é evento raro e pouco frutífero. Viver de maneira imperfeita, comprando os riscos, trucando os desafios é tornar concreto nosso sonho, por mais subjetiva que seja a mentalidade que nos guie.

Esteja pronto para errar, pivotar se for necessário, mudando o rumo e vivendo cada fracasso por completo. Ele é seu e a responsabilidade de em que ele será catalisado é sua.

Seja louco para errar, no melhor método que conseguir.

Quando você almeja a lua, será atingido pela rejeição, bem antes de alcançar qualquer estrela”

(Lisa Curtis)

A dona do verbo

Era uma vez uma garotinha que não se fazia entender por palavras. Isso mesmo. Emitia o som em porte adequado, desfrutava de acertado vocabulário, pronunciava-se em relação a qualquer assunto, falava mesmo pelos cotovelos e discutia, muitas vezes, com a própria imagem ao espelho. Mas, curiosamente e ninguém sabia explicar o porquê, não se podia compreender o que ela dizia, por maior que fosse o seu entusiasmo ou a disposição e empenho do interlocutor.

Apesar desse detalhe quase irrelevante da falta de comunicação, ela continuava senhora de si e expressava-se da maneira como conseguia. Experimentava verdadeira paixão pelos vocábulos, enxergava letras no ar e tentava apanhá-las, em fantasia, para formar seu nome. É fato que preferia o A e o M, tinha certo medo do Z e do H e ria-se toda quando o I ensaiava sair de sua boca.

Complicado era decifrá-la quando seus olhinhos aflitos algo solicitavam, quando esperava por uma resposta. Chorava um pouquinho, mas em seguida, novamente um turbilhão de frases saía de si,  para talvez um dia fazer sentido.

Muitas vezes, solicitou à mãe, através de gestos, que lhe comprasse uma nova voz ou algum chá de entendimento no mercado, na loja da esquina, no centro da cidade, na loja online da China. Não era possível! – Em algum lugar deveria haver a sua solução em troca de algumas moedas! Mas sua mãe não achava em parte alguma.

Até que em um dia, a menininha se enfastiou e resolveu parar de falar, se é que de fala podemos chamar a sua constante tentativa frustrada de conversação. Cerrou os lábios, cruzou os braços e negou-se a ser a pseudo-tagarela de antes. Todos, obviamente, estranharam esse comportamento de resistência e aprisionamento de si mesma. Porque, ao não se importar mais em se fazer ouvir, ninguém mais sabia como acessá-la.

Os dias se tornaram mais silenciosos, solitários e menos inesperados. Perdeu-se o decifrar e até o humor encoberto que pairava ao redor daquelas palavras ininteligíveis. E eis que o mundo que a cercava calou-se junto com a garota.

Silêncio. Silêncio. Silêncio. Não, assim, já era demais! Tudo bem ela não falar, mas ninguém mais??? Não, isso não estava certo. Foi o que ela pensou ao olhar para cima, para os lados, para frente e para trás e enxergar todos tão aborrecidos, lastimando a transformação da criança, de barulhenta para taciturna.

– Ei, vocês! Parem com isso! Ninguém mais vai conversar comigo?

Silêncio. Silêncio. Silêncio.

– Ora bolas! Como se fizesse algum sentido o que estou dizendo!

Os rostos e expressões de  todos próximos a ela denunciavam: o que fluía dela tinha sentido sim. Naquela hora, a menininha sem palavras dava lugar à chefe interina das orações e não havia pessoa no mundo que não distinguisse cada letrinha de suas sentenças.

E eis que, desse dia em diante, qualquer um, vindo inclusive de terras distantes, vinha curvar-se diante dela e ouvir o que a voz mágica da pequena dona do verbo tinha a manifestar.

 

 

 

A promessa da primavera

Em cada vida, há uma primavera. Mas ela ainda está por vir.

Hoje a terra ainda é fria, o ar nos arrepia e faz buscar abrigo. Mas o Sol aumenta sua força a cada dia e logo mais seus raios morosos reinarão em plenitude.

As trevas que nimbam as noites se descortinarão para a luz até ontem inconquistável, fazendo com que a vida desperte desse sono de inverno.

Hoje é o primeiro dia em que a criança começa a crescer desenfreadamente dentro de cada um, com exalação do novo.

Hoje se carrega o poder de transformar esperança em veracidade, pensamentos mortiços em escombros do passado somente.

É tempo de ressurgir, renovar.

É tempo de varrer, lavar e purificar.

A partir de hoje estejamos atentos às inspirações, já com as gavetas internas limpas, após a reclusão que o inverno caucionou.

É o hoje de ocupar os espaços vazios com o que vem no seu tempo, no tempo que vier.

É tempo de dizer: te esperarei, Primavera, e quando chegar, fique o tempo que puder.

Olhando o vazio

Ei, pequeninos!

Desculpem-me por ter lhes trazido para essa encrenca.

O mundo está um embaraço só e é tão complicado voltar a acreditar: confiar nas pessoas, fiar-se às próprias ideias, seguir em frente sem fulgurar em vazio…

Parece que a hora está errada quando encaro o relógio. E, no entanto, ele só mostra que o tempo urge, que já correu, que a vida é ida.

Quero muito ensinar sobre coragem, sobre dizer sim, mesmo quando é o não que me congela o coração, mesmo quando sou eu que travo na porta de entrada.

Então há um segredo repetido como mantra: quem tenta, não consegue! Quem tenta, não consegue! Quem tenta, não consegue! Acreditem, vocês sempre triunfarão, de uma forma ou de outra, pois são feitos da matéria de sonho real. Eu, porém, que flutuo sem parar, ainda tenho receio de cair.

E vocês perguntam “e agora?” e a minha vontade é repassar a questão para alguém que saiba respondê-la. Ora, mas eu agarro esse agora fortemente nos braços e dele faço nosso presente, presentemente.

O mundo está em desordem, eu sei, mas a gente pode arrumar a casa, deixar o quintal limpo, pois se não nos encontrarmos aqui dentro, se não nos reconhecermos em nossa intimidade, lá fora toda essa insensatez não nos acolherá.

Feijãozinho

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(Encontrei esse palavreado em meio a revistas de medicina, escrito para o meu primeiro pequenino há uns três anos e achei justo compartilhar nesse espaço, de que ele inspiradoramente faz parte)

Era uma vez um feijãozinho com quem eu nunca sonhei, mas a quem enchi de apelidinhos antes mesmo de conhecer. Não sonhei e nem esbocei características para seu rosto ou sua personalidade. Jamais pude imaginar que esse Feijão teria o sorriso mais iluminado do universo, o olhar mais sedutor e que poderia existir alguém como ele.

Nunca mais houve “meio sim” ou “meio não”, pois ele tornou tudo absoluto. Nunca mais houve quedas, pois estou sempre a flutuar. Nunca mais houve silêncio, pois o amor segue a gritar. Nunca mais houve simples pensamentos e sim grandes sonhos. Nunca mais houve solidão, nem gota qualquer.

Duetos: Jogue seu corpo ao mar

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Criei esse espaço “Duetos” para deixar eclodir a vontade de conhecer o outro, de desafiar-me a novas formas de escrita e para me aproximar daqueles que cultivam as palavras como companhia predileta, sejam escritores, devaneadores ou parceiros na vida que gostem de traduzir em verbos suas sensações.

O resultado está me trazendo um contentamento místico e a certeza de que escrever é o que quero fazer para o resto da vida.

E esse encontro de hoje só posso definir de uma forma: foi lindo. Quem me deu a honra de fazer parte desse espaço foi a Juliana Lima, do blog Fabulônica.  Conheci a Ju há quase um ano aqui na blogosfera e ela é  acolhedora, motivadora, desafiadora, meiga e adotou um verbo para si: compartilhar. Ou seja, o tipo de pessoa necessária. Continuar lendo