Amiga

Ela é alguém que escuta seu silêncio sem monotonia no rosto, que enche de presença sua vasta solidão, que desarma seu grito com um sorriso quando seus vulcões internos resolvem bruscamente entrar em erupção.

Ela é alguém que tem liberdade para te dizer: vá! Pare! Pense! Chega! É alguém que se cala e segura sua mão quando não há mais o que dizer, que te telefona para pedir que pare de chorar, imaginando que sua cara esteja horrível, já que a voz revela o nariz entupido e, assim, não perde a oportunidade para ordenar que vá lavar o rosto, seguido de um “eu te amo”. Mais tarde, esse alguém vai assumir que também ficou com o nariz entupido, pois chorou junto, à distância. Continuar lendo

Todos temos aquele amigo

“A amizade é uma alma com dois corpos”

(Aristóteles)

Amigo faz moradia dentro da gente, cava e cava buraco até se infiltrar de vez e depois perde a chave, faz pompa na vizinhança e se serve de todas as nossas reservas de carinho e, curiosamente, para ele, esses estoques parecem nunca se acabar.

Amigo sabe tocar na gente, literalmente falando: pega na mão, dá abraço de quebrar as costelas, puxa pelo ombro, acotovela-se todo para sair na foto e dá aquele tapinha de leve no braço, raras vezes deixa hematomas, te chamando de tolo por alguma bobagem dita.

De amigo exige-se Continuar lendo

Bia

Bia me espiava lá do fundo da sala, nas últimas carteiras, postura algo arqueada e um olhar que arremessava intromissão e alguma demanda, que não soube dizer bem o que era. Mirava em frente, nunca acima de sua cabeça. Não se aproximou em sua totalidade, mas tornou confessas algumas palavras em um dos muitos cadernos de recordações, dos quais mal me recordo ainda hoje. Orgulhava-se da amizade, que nem existia formalmente.

Bia se chegou como tia. Dávamos apelidos/cargos para cada um. Uma era a mãezinha, outra a tia, outra a irmã, outra a psicóloga…uma sociedade monótona, em que os papéis eram especulativos, para justificar as afinidades.

Bia quis ser Continuar lendo

Solidão

Há um raio de sol que permeia de solidão os arredores. Guiados pelo cansaço, os homens passam na frente do prédio, sem apego ao momento. Há poucas horas, cadáveres espreitavam entediados nossas primeiras descobertas. Nada é a certeza que nos condena. E, desprovidos de êxtase, corremos atrás de um sonho. Distante.

Tudo é poesia. Mesmorembrnt os restos de um corpo que já não responde por si mesmo. Eles passeiam pelos corredores, sobem e descem escadas e deixam, por onde passam, um rastro do seu desejo. Desejo que é sombra. Sem dono.

Poei Continuar lendo