O beijo

Mãos unidas, corpos resvalando, sinto sua essência tão próxima de mim, sua boca me convoca em sopro perfumado, e a pele vivencia o mormaço de seu hálito. Aguardo ansiosa o batismo dos seus lábios, aglomerando-se nos meus, feito colisão frontal, sem cálculo, sem premência, com devoção ausente de embaraço.

Esse toque me acode, surge para coexistir junto a mim, eu que não sei ser deserta, eu que suplico contato. Chega para invadir meus impérios, tomar posse, traz junto seu odor, sua saliva, sua língua, seus olhos cerrados embrenhando-se em minhas trevas.

Nada mais se enquadra no espaço de um beijo, nenhum segredo cala, por fim, nossa comoção e outras formas de linguagem se esvaecem. Vou e retorno da amplidão ao abismo em um mero átimo e não me interessa mais outra direção tomar.

Não me solte, não lacere minha alma ao desvencilhar-se de meus lábios. Quero persistir nessa viagem, excursionando em seus sentidos, perdendo-me na falta de juízo e desprovida de qualquer inquietação, deixando a noite cair…

Solidão

Há um raio de sol que permeia de solidão os arredores. Guiados pelo cansaço, os homens passam na frente do prédio, sem apego ao momento. Há poucas horas, cadáveres espreitavam entediados nossas primeiras descobertas. Nada é a certeza que nos condena. E, desprovidos de êxtase, corremos atrás de um sonho. Distante.

Tudo é poesia. Mesmorembrnt os restos de um corpo que já não responde por si mesmo. Eles passeiam pelos corredores, sobem e descem escadas e deixam, por onde passam, um rastro do seu desejo. Desejo que é sombra. Sem dono.

Poei Continuar lendo