Tempestade cerebral

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“Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela.”

(Clarice Lispector, em Tanta Mansidão)

Não venha regar minhas begônias, pois eu as quero íntegras, mesmo ressequidas. De dia sou Luiza e à noite, Carla, orgiástica, mas tanto faz, já que tenho medo de ser óbvia.

Tenho medo de cantar mal e não me fazer ouvir. Não me refiro à melodia, mas quando canto gosto de saber que meu corpo vibra e é vista uma luz emanada de dentro de mim, mesmo que a voz não ecoe.

Tenho medo de tropeçar e tombar. Insanamente acabo soltando um gritinho abafado, para que quem não assistiu à queda, possa notar-me estatelada ao chão.

E nada disso quer dizer eu mesma.

Sou aprendiz, mas se não souber o meu valor, nem você, principalmente eu, não adianta desgrudar os pés do solo, melhor criar raízes.

Talvez digam que não sou eu mesma, ou que não convém ser eu mesma. Porque política, futebol e religião não se discutem. Então me abstenho. Ora, mas como não falar se ainda estou me procurando por aí.

“Se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar quando eu me encontrar.”

E corro o risco de nunca mais ser vista.

 

Perdoando a si mesmo

Entre contemplativa e autônoma em sua caminhada, jogaram-lhe diante de si um ser repugnante: um rato. Esse impacto violento para o qual não estava pronta leva, na verdade, a uma reconstrução de si mesma. E para se reconciliar com o mundo, com Deus e consigo mesma, talvez seja necessário cometer seus próprios crimes.

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A cena é sóbria e desnuda: uma mulher caminha pela avenida Copacabana, tentando ser algo que poucos conseguem. Essa mulher dedica-se a ser livre.

O personagem anônimo de Clarice Lispector, em Felicidade Clandestina, no conto “Perdoando Deus”, figura em seu monólogo interior e abre a demanda para novas inspeções da realidade.

Essa mulher sente-se livre ao perceber o mundo ao redor e repara que tal ato mal precisa de suor; prestar atenção nas coisas é passivo, já que em um curto momento de epifania, torna-se ela responsável pelo mundo. Continuar lendo

Vim perguntar o que faço de mim

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Esse é mais um post da série “Duetos”, só que um pouco diferente. Há mais de dois meses, convidei um amigo, duplamente colega de profissão (médico e escritor) e alguém que tem sido grande incentivador do meu trabalho para escrever um conto comigo aqui para o blog, o Flávio Gimenez. A proposta era criar uma história sobre um encontro entre um médico materialista e rigoroso em sua arte e uma garota desarmada, buscando encontrar a si mesma.

E começamos a escrever, de forma que a reação de um personagem se baseasse na resposta do outro. Logo, não sabíamos que rumo tomaria o conto, mas sabíamos que em poucos minutos, todos estariam transformados (personagens e autores).

Como o conto beirou as 15 páginas, tivemos a ideia de publicá-lo em eBook. Segue a sinopse da história:

“–  Então, diga-me, eu lhe suplico, como pode interceder por mim? Como pode me alforriar desse corpo? Como pode me deixar fluir?”

De um lado, Dr. Eugênio, um médico generalista inflexível e sagaz, no auge da carreira, segue sua rotina ocultando suas desilusões por detrás de atendimentos vazios e ostentação em demasia. Do outro, uma garota clandestina, Olívia, procura sua libertação e, diligentemente, incumbe ao Dr. Eugênio que a faça descobrir o que fazer de si mesma. Diante desse encontro, será irrevogável a reinvenção de ambos os personagens, após momentos m1176195861uito particulares de catarse.

Vim perguntar o que faço de mim é um conto criado por dois médicos, um Clínico Geral e uma Pediatra, dois observadores da vida e que assumiram, também como profissão, o encantamento pela escrita. O encontro entre médico e paciente foi delimitado através de longos diálogos virtuais, de maneira que, assim como na história, os sobressaltos dos personagens fossem totalmente secretos até as últimas palavras.

Convido a todos para adquirirem o livro/conto Vim perguntar o que faço de mim em eBook, disponível no site da Amazon sem custo durante essa semana.

Até o próximo encontro!

Tag Cheia de Histórias

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Mais uma TAG a ser respondida, dessa vez com um aroma diferenciado: o Marcelo do blog Patriamarga me indicou para responder às dez perguntinhas dessa TAG, com a sugestão de que o fizesse de uma forma incomum, com ideias e histórias.

Pois bem. Seguem as minhas respostas, da forma que eu consigo fazer (evasiva, fazer o quê…?).

 

  1. Qual sua maior inspiração para escrever?

Ela vem. Começa bailarina, com seu passo harmonioso, sem remate, doida para saltitar à luz da lua. De repente pára, questiona. É interpelada. Não sabe se fica, se prossegue. E vira tempestade, com raios súbitos. Quem a trouxe? Alguma dor que não se acaba? Algum amor que nem existe? A constatação de que as adjacências podem ser diferentes? O que sei é que ora graciosa, ora tumulto, ela será bem vinda. Ela, a ideia. Continuar lendo

Duetos: Eu em mim

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Mais um encontro para a série “Duetos”, oportunidade criada para deixar eclodir a vontade de conhecer o outro, de desafiar-me a novas formas de escrita e para me aproximar daqueles que cultivam as palavras como companhia predileta, sejam escritores, devaneadores ou parceiros na vida que gostem de traduzir em verbos suas sensações.

11694930_1108705445816557_8595821295550226573_nDessa vez, a colaboração é da Kika Lima, amiga, parceira de vida e alma, que topou responder às perguntas e delirar um pouco junto comigo. Como ela é o tipo de pessoa que dispensa definições, teria que conhecê-la para entender, deixo aqui a frase que norteia sua vida:

“Liberdade é pouco, o que eu quero ainda não tem nome”
(Clarice Lispector)

Partimos de uma imagem ao espelho, com a ideia de reconhecer-se ali, um alguém que não estava acostumado a olhar para si. O resultado pode ser conferido aqui:

EU EM MIM

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Ei, chegue mais perto.

Era minha voz que soava imperativa mas longínqua, em alguma minúcia do quarto que eu ainda não percebia. Oh, não, será que ousei partir e esqueci de me findar? Eu que Continuar lendo

Eternamente larva

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O presente se desagrega junto com minha consciência. Fragmentos do que sou ou do que não fui se aderem aos muros que me cercam, expondo-me a um julgamento ilimitado. E quando me reintegro, percebo olhos que, em todas as direções, perseguem meus passos, espreitam cada decisão, cada ato, sem, no entanto, definir o correto. Tento enganá-los, fugir do seu alcance, mas é inútil, pois, por mais que eu me tranque em quartos vazios ou corra por desertos distantes, ainda sinto a sombra desses olhos pestanejando dentro de mim. Continuar lendo

Carta ao livro

“Um livro é a prova de que os homens são capazes de fazer magia.”
(Carl Sagan)

Querido amigo

Estou esgotada ultimamente, mal tenho forças para fazer-lhe companhia e dói-me o coração tê-lo tão contíguo todos os dias, tão desimpedido e destinar a você conversas tão curtas. Acredite, embora nem sempre eu o carregue, você me acompanha ao longo do dia, nem que seja em minhas aventuras mentais. Continuar lendo

Acordar

"Porque, às vezes, acordar tem lá suas muitas desvantagens" Clarice Lispector

“Porque, às vezes, acordar tem lá suas muitas desvantagens”
Clarice Lispector

Há uma fresta na janela, mas não desejei que ela estivesse lá. Logo vai anoitecer e eu não me importo em não ver as estrelas. Há uma lua, mas ela já está completamente desmistificada.

É preciso levantar da cama e deixar antigos sonhos arderem.

Quero algo atual. Vi esse filme ontem e tudo perde o sentido rápido demais.

Mesmo para quem sonha. Principalmente para quem sonha.

Livros que moldam

Eu me considero desenhada pelo que leio ou li, e bem sei que muitos também se enxergam assim. A lista de livros essenciais é grande, mas vou citar o principais, que mudaram minha vida e são referências, ainda hoje, de alguma forma:

  • Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres – Clarice Lispector
  • Crime e castigo – Dostoievski
  • O morro dos ventos uivantes – Emily Brontë
  • O amor nos tempos do cólera – Gabriel Garcia Marques
  • Hamlet – William Shakespeare
  • Ensaio sobre a cegueira – José Saramago 

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    E vocês, conseguem nomear ao menos três livros que modelaram quem são hoje?