Para sempre

Parece que a ouvi chamar. Então, logo obedeci. Você não podia me ver, nem eu sequer adivinharia seu rosto, tão similar ao meu. Porém sua voz dormente e seu toque ainda distante acalmavam-me os dias, despertando o desejo de surgir e nascer para apurar quem de fato  era você.

Logo cheguei, apesar dos rodeios. Há quem diga que me arremessei nos seus braços. Hoje penso que foi você quem me alcançou, refugiando-me nessa fusão até o fim dos meus dias.

Tanto chorei e a vi mortificada a policiar suas próprias lágrimas. Tanto me retive acordado, à procura de um conforto que eu nem bem entendia e a vi ali a tentar estabilizar as pálpebras combalidas.

Então, compreendi onde estava. Não sabia nomear, mas sabia que era minha, que tudo era para mim e que não estava a viver essa vida sozinho.

Dessa forma, foi mais fácil sorrir. E quase me dilacerar em gargalhadas, pois também você se abria em riso rasgado para refletir minhas conquistas.

Você me viu rolar, cair para o lado, tropeçar. Testemunhou os primeiros desconfortos, as grandes dúvidas dos limites da normalidade e contestou até que ponto garantiria a sua própria lucidez.

E sem qualquer abecedário, estávamos ali numa nova realidade por vezes assustadora, outras pulsátil, em que trocamos longos discursos mesmo sem dizer uma palavra e li nos seus olhos a hesitação do “e agora?”

E aquela hora você começou a me formar, deixando que eu me modelasse. Naquela hora você me influenciou, embora fosse eu quem decidisse ao fim. Naquela hora você criou um roteiro, mas deixou que eu entrasse em cena como estrela, sendo sempre coadjuvante. Naquela hora você me deixou seguir, desprendendo-se de minhas mãos, sem, no entanto, desconectar-se de mim.

Sei que travou uma luta contínua para se renovar, para melhor lapidar esse novo nome que ganhou. Mãe.

Então, agora sou eu que a chamo. Para sempre.

Bailarina ela não é

“Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem.”

(Chico Buarque)

De um sobressalto, levanta-se da cama, sem aviso prévio. Pensa se alguém lhe havia perguntado se é isso mesmo que deseja. Não, um sonho a mais, por favor. Mas não foi bem isso que se deu. Alguns choros, que juntos não somam mais do que seis anos, repercutem em seu quarto, mesmo que, propositadamente, os quartos sejam um pouco distantes do seu.

Tempo de trocar fralda, lembrar o xixi do grande, o seu mesmo fica para depois, limpar os mucos que douram a face do menor, escovar os dentes, tantos dentes, remédio de asma e o relógio, nesse meio tempo, andou avançando alguns minutos acelerado. Bailarina ela não poderia ser às seis da matina.

Olha-se ao espelho, enquanto os dois se estapeiam entre as pernas dela. Deuses da natureza! Que círculo lúgubre e cinzento é esse abaixo de seus olhos turvos? E essas erupções tomando formatos exacerbados? Procurou bem e tinha certeza de que ontem não havia essa imagem sentenciosa ao reflexo. Não procurou direito decerto, pois olheira, remela e pereba só a bailarina que não tem.

Serve o café a quem deve, por direito, tomá-lo e vai vestir algo passível de ser conferido às ruas, basta que a calcinha não marque, o sutiã não salte aos olhos e as meias, se notadas, sejam do mesmo par, ao menos semelhante. Mas faz uma paradinha obrigatória no banheiro antes, em raros segundos de sossego, visto que ela não é bailarina, e de vez em quando, tem piriri.

Apressa um pouco quem tende a devanear por sobre o copo de leite, pois a rotina bate à porta. Para sair, é preciso falar mais alto, até prometer penalidades a quem não obedecer, já que ela se descuidou um bocado do relógio; assim, perde um pouco os bons modos e, convenhamos, quem tem maneiras é a bailarina, o que ela tem são contas para pagar.

O dia vai se despachando sem atalhos e o que comeu ainda nem foi digerido, o esmalte das unhas a ser roído e as feridas do coração nem Continuar lendo