Eu te amo

Conteve as palavras em dezenas de ocasiões. Frasezinha de ouro, difícil de sair. Requebrava dentro de si, fazendo troça de seu engasgo, subia, subia até ali, perto da boca, cavava espaços, tentava jogar-se para fora, mas na hora certa, hora mágica, não havia como, simplesmente, não a deixava desvencilhar-se de si.

Até que era natural cantá-la nas canções, ler nos livros, ouvir nos filmes, repetir em bom som ao espelho, mas quando apoderava-se dela, quando o “eu te amo” tornava-se responsabilidade sua, ah, daí não havia como proferi-lo.

E durante um bom período de tempo leu e escutou, direcionado a ela. Calava-se, desconversava, sorria tímida, nem conseguia mais olhar no fundo dos olhos. Que era isso que sentia? Esse incêndio dentro dela, as horas distraídas, as lágrimas silentes nos momentos inusitados, ar restrito, peito apertado, coração fugido tamanha a pressa. Mas, imediatamente, retomava a consciência e a terceira pessoa que participava de seus relacionamentos – ela mesma, vendo-se de fora e rindo da cafonice da situação – tornava frustra qualquer tentativa de soltar o verbo. E o tal do “eu te amo” não nascia.

E essa matéria de assumir o amor é complicada, com ou sem Super Ego na jogada, tinha que entender o seu significado, pesar todas as possibilidades, diagnósticos diferenciais, o que sentia poderia ser só uma dor de barriga, uma crise de ansiedade, um medo bem grande de sei lá o quê ou até mesmo um infarto agudo. E dizer “eu te amo” para alguém, comprometer-se tão intimamente, não seria uma forma de doar-se e, consequentemente, perder-se de si mesma?

Porque achava que nem sempre amor precisa ser coisa explosiva, de atropelar tudo e todos, de amarrar as ações. Aceitava que tivesse seu grau de excelência em descoordenar um pouco as posturas e até desgovernar as palavras. Mas sua sanidade intelectual precisava ser preservada, então esperou.

A espera amadurece, faz crescer, não é novidade. E o amadurecimento desbanca crenças e conceitos, cria outros mais sólidos ou, como nesse caso, derrete aquela infalível confiança de julgar ter o mundo sob seu controle.

Daí que na batida do relógio em que teve absoluta certeza do que sentia, ele não estava mais na expectativa de ouvir a frase. E se foi antes que ela ousasse emitir sua curta sentença. Mas, para evitar que os lamentos pela malfadada história de amor repercutam por aqui, esclareço: estamos falando de anos nessa delonga, logo, não há crueldade, nem imoralidade nenhuma na atitude do outro. O atraso cansa e tanto a alma quanto o corpo precisam de abrigo.

As três palavras detiveram-se nas letras de músicas. Chico, Vinícius, Ivan, Djavan, Tom…muitos dedicaram formas diferentes de se declarar para ela na sua imaginação. O romance ficou na ponta da caneta, no olhar distante. E o tempo curou a ausência das palavras, como ensinamento, trouxe a proposta de deixar o “eu te amo” sair, quando houvesse satisfação em dizê-lo, quando houvesse deleite em senti-lo. Assim sendo, as palavras fluem, sem obrigação, sem demanda, sempre que ela deseja, sendo pronunciado pelas entranhas, e nunca mais sendo deixado para amanhã.

 

Música para ouvir música para ouvir música para ouvir.

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O título do post é uma homenagem à música de Arnaldo Antunes,  nomeada “Música para ouvir música” , sobre música para todo tipo de momento, como trabalho, estar distante, querer morrer e até para boi dormir.

O tema diferente do estilo que estou acostumada a escrever se deve a uma comoção singular que me tomou nos últimos dias, ao relembrar, ao vivo em um show, músicas que tanto me foram destacadas ao longo da vida.

E isso trouxe alongadas reflexões!

“A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende.”
(Schopenhauer)

Então, foi necessário vir até aqui para descrever um pouco as músicas da minha vida. Tudo começou com uma lista, eu que quase não gosto delas, chamada “Lista das músicas que mais gosto na vida”, e tive que selecionar e selecionar, porque tinha que ter significado, juntando letra e melodia, era preciso que fossem as mais tocantes, as que fizeram parte de algum momento catártico, ou que trouxessem algum sentimento que beirasse o sobrenatural. Para tanto, tornou-se um seleção muito pessoal, que me define e conta minha história. Como sempre falo e escrevo demais, não podia ser a lista das “10 mais” ou “top 10”, tinha que ser:

AS VINTE MAIS:

Eu ouço música
como um anjo doente
que não pode voar.
(Mario Quintana)

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1) Can’t take may eyes off you – Frank Valli and The Four Seasons

“I need you baby to warm the lonely nights”

2) One more try – George Michael

Sou fã de George e sofri para escolhi apenas uma, mas não é ele, é o sofrimento da canção:

“There are things that I don’t want to learn
And the last one I had
Made me cry”

3) You are everything – The Stylistics

Sim, sou ancestral, mas essa música é excepcional…

 

4) And I love her – The Beatles

Gosto de infância…

 

5) Walk on – U2

Essa música sempre me elevou a outros patamares, mas depois de ouvir Bono ao vivo, meu sonho havia tantos anos, diria que é música-tema da minha vida. Poderia colocar a letra inteira, que é toda ela especial, mas segue o trecho mais avassalador para mim:

“And I know it aches
How your heart it breaks
You can only take so much
Walk on! Walk on!”

6) We’ve got tonight – Kenny Rogers

Essa canção faz a vida parar uns instantes.

“Why don’t we stay?”

7) Time of your life – Green Day

Música-hino. E esse vídeo é arrepiante.

“It’s something unpredictable
But in the end it’s right
I hope you had the time of your life”

 

8) Cannonball – Lea Michele

Amo tudo que a Lea faz, mas essa música em especial, é um salto para o mundo.

“I gotta get out into the world again!”

9) On my own 

Essa versão é de Les Miserables, maravilhosa e a letra exalta grandes lembranças.

“But every day I’m learning
All my life
I’ve only been pretending”

10) Setembro (Amada) – Ivan Lins

Essa música do Ivan me traz tantas sensações de quem eu era, de incertezas, de não saber onde pisar…

“Há de ser a mais amada
há de estar acima dos desejos
Há de estar ao lado de si mesma
pronta para viver um
grande amor”

11) Eu te amo – Chico Buarque

Chico disse tudo nessa música que eu me realizaria em dizer num poema.

“Te dei meus olhos pra tomares conta, agora conta como hei de partir”

12) Paciência – Lenine

Tudo que Lenine faz é incrível, mas essa música, talvez a mais famosa, é perfeita.

“Até quando o corpo pede um pouco mais de alma, a vida não pára”

13) Noites com sol – Flávio Venturini

Toda a discografia do Flávio fez parte da minha vida e serei repetitiva plagiando Vinícius, pois ele “chora no teclado e na voz todas as minhas mágoas de amor”

“Onde só tem o breu
Vem me trazer o sol
Vem me trazer amor
Pode abrir a janela”

14) O mundo é um moinho – Cazuza

“Em cada esquina cai um pouco a tua vida, em pouco tempo não serás mais o que és”

15) Sorri – Djavan

“Sorri quando a dor te torturar e a saudade atormentar os teus dias tristonhos, vazios”

16) Olhos de jade – Beto Guedes

“Sou quem vê a miragem
E quer acreditar no que vê”

17) A hora e a vez – Boca Livre

“Paga a promessa que não fez, diz a verdade ao mentir”

 

18) Sem não – Lô Borges

“Quero delicadamente arrebentar toda a lei do mundo e sua lógica”

Impossível explicar o que essa música me causa, com toda a sua simplicidade.

19) Um certo alguém – Lulu Santos

“Quis evitar seus olhos, mas não pude resistir, fico a vontade, então”

20) Uma louca tempestade – Ana Carolina

 

“Eu quero ser uma tarde gris
Quero que a chuva corra sobre o rio
O rio que por ruas corre em mim
As águas que me querem levar tão longe”

E canto alto, sempre com lágrimas.

Dêem-me música em excesso; tanta que, depois de saciar, mate de náusea o apetite.

William Shakespeare

Quem topa falar sobre suas músicas favoritas?