A impostora

Queimou os olhos ao despertar. Foi quando tocou cada pálpebra com as mãos e elas se afastaram escaldantes. Já seu corpo não conseguiu se conter em si mesmo e suplicou abafado por separação: não queria mais conviver com o raciocínio febril que dominava cada manhã exaustivamente. Se nada fizesse para reformar essa rixa, seria fim, caminho em sentidos opostos, corpo e mente não mais poderiam coexistir no mesmo posto.

Sabemos nós que dentro dela reside uma impostora, uma farsa em si mesma. Não sabe sorrir, desaprendeu a chorar, que personagem desinteressante é esse que se tornou? Tanto faz se dorme ou se segue a vagar despertada, pois trata-se apenas de um corpo quente, não consumido por chamas por pouco não apagadas.

Qual foi o último pensamento que lhe surgiu ontem, às vésperas do torpor, não se lembra. Sabia que era oco, algum argumento bem vazio, que não fora capaz de concluir, pois agulhou sua pele sem trazer linha consigo, não houve remendo, veio só para cutucar. Ou para trazer a sensação de existência? Efeito avesso conseguiu, pois o sono veio e Olívia foi ficando cada vez mais longe; cada vez mais murcha, inerte, feito corpo moído e morto, pronto para o descanso final.

Com nada sonhou, disse a si mesma ao espelho, tamanha foi a impressão de falecimento. Mas ontem sim, sonhou que adorava uma estátua, uma estátua de cerca de dois metros, plúmbea, glacial e com o rosto desfigurado. Não reconheceu os traços, mas desejou atingir aquele rosto longínquo e sem alcunha, poderia estar ali para ser visto, mas também poderia ser dela. Poderia ter aparecido no sonho com o único propósito de pertencer a ela. E o que faria com a imagem, não sabia. Levaria para o quarto e deixaria ao pé da cama, para acordar todos os dias e fingir que estava sendo admirada? Mas nem olhos a figura possuía! Só queria poder tocá-la fora desse devaneio, queria mesmo senti-la viva, mesmo fria. Tinha o corpo nu. Se fosse dela, Olívia cobriria suas partes com um grande lenço, pois nem tudo necessita ser desvelado.

Seus cabelos caíam na altura dos seios, o suficiente para escondê-los caso esquecesse de colocar a blusa. Ora, por que esqueceria de se vestir!, pensou. Fez logo uma trança, seu jeito menos complicado e mais íntimo de se caracterizar e afastou a ideia de sair de casa desguarnecida. Antes de se afastar do espelho, quase teve certeza de ter divisado um clarão ao redor de si, que a fez parecer incontestável. Palpite vago foi esse, pois sem café mal podia se enxergar.

A sua casa era quase despovoada, com o essencial. As paredes brancas não pediam nenhum objeto que maculasse sua candura, como folhas em branco a serem desenhadas, mas sem pressa alguma.

O dia clamava para que ela se resfriasse aos poucos, desafogueasse os poros. Hoje ela precisava abrir a porta, passar a catraca e descer do trem com meta, sem titubeio. É hoje que ela talvez se engrene, porque o que quer é apagar as chamas e voltar ao mormaço dos dias.

Irá visitá-lo. Irá entregar-se à mesa, feito pacote rendido. Irá derramar tudo, de sombras a melindres e ele que lhe instrua, que lhe habilite a tornar-se proprietária da vida. Vou me buscar – esclareceu –, pois em algum lugar estive esquecida. Hoje seu plano era desvendar o que poderia fazer de si.

(Do conto Vim perguntar o que faço de mim – Francine S. C. Camargo e Flávio Luengo Gimenez)

Colo de mãe

Hoje Mãos Livres completa um ano do lançamento oficial, um dia muito muito especial para mim. Nada melhor do que comemorar com um texto do livro, não?

 

Colo de mãe

Ela já era muito grave, desde o nascimento. Por volta de 2 meses de vida, nunca havia saído da UTI. A mãe, ali do lado, quase não desgrudava dela, quase nunca a deixava sem um afago, e em nenhuma circunstância deixou de enxergá-la como o doce bebê com quem sonhara por tanto tempo, apesar do aspecto inchado, muito inchado, de quem já passou por tantas infecções, cirurgia cardíaca e procedimentos variados.

Já fazia tempo que não via os olhos da filha abertos, tampouco o fechar das mãos nas suas, o choro invocando sua presença. Um dia, ela revelou que não tivera a oportunidade de pegá-la no colo. Jamais. Ficava lá, em vigília ao lado do berço, quando muito, sentava em uma poltrona um tanto desaconchegada, ausentava-se nas situações de procedimentos para um café ou hidratar a boca pálida, permitindo que seus olhos esgotados espiassem também outros cenários, sem alarmes, monitores, números e gasometrias.

No entanto, a pequenina não melhorava. Seu aspecto e o quadro se agravavam ao longo dos dias, em verdade. Nenhuma medida surtia qualquer efeito. E face a face com a mãe, não havia como mentir, disfarçar, enganar. Não havia nem muito o que dizer, pois ela sabia.

Sabia da nossa tensão, das intermináveis discussões, do quanto estudamos procurando uma terapêutica diferente, de todos os especialistas que opinaram, do quanto a vida de cada um de nós também estava afetada por aquela história, já que é impossível passar imune numa UTI. Mas ela, a mãe, vistoriava diariamente sua própria força, reconhecia seus limites e diante desse impasse, executava a tarefa de esperar da maneira que suas pernas e seu amor aguentassem: trêmulos, ziguezagueando, às vezes, mas sem ruir.

Não se permite que um filho vá, ponto final. Mas eles partem. Aquele alvorecer foi implacável. Quatro perdas, ou seriam rendições? Quatro famílias sem alento. E a pequena e sua mãe, esgotada de lágrimas, estavam nessa sequência. Não se descreve dor, não se diz “eu sei” porque não há como entender, e a frase surrada de “ela descansou” é dispensável. Tudo é agudo demais para ser pronunciado, até mesmo o nome, quanto mais o indesejado verbo conjugado. Só dá para abraçar, chorar e ficar junto, fazer o que dá pra fazer: esperar.

Todo esse sofrimento, apesar de continuar intitulado dor, trouxe um momento mágico, sem lágrimas, e com uma devoção sem troca, mas mesmo assim um instante de entrega inacabável: após negar e negar, achar que não podia, não seria capaz, a mãe resolveu sentar naquela conhecida poltrona e pegou sua filha no colo, pela primeira vez. E ali ficou um tempo, transbordando-se de amor, sem pressa, num discurso silencioso, em despedida.