Para sempre

Parece que a ouvi chamar. Então, logo obedeci. Você não podia me ver, nem eu sequer adivinharia seu rosto, tão similar ao meu. Porém sua voz dormente e seu toque ainda distante acalmavam-me os dias, despertando o desejo de surgir e nascer para apurar quem de fato  era você.

Logo cheguei, apesar dos rodeios. Há quem diga que me arremessei nos seus braços. Hoje penso que foi você quem me alcançou, refugiando-me nessa fusão até o fim dos meus dias.

Tanto chorei e a vi mortificada a policiar suas próprias lágrimas. Tanto me retive acordado, à procura de um conforto que eu nem bem entendia e a vi ali a tentar estabilizar as pálpebras combalidas.

Então, compreendi onde estava. Não sabia nomear, mas sabia que era minha, que tudo era para mim e que não estava a viver essa vida sozinho.

Dessa forma, foi mais fácil sorrir. E quase me dilacerar em gargalhadas, pois também você se abria em riso rasgado para refletir minhas conquistas.

Você me viu rolar, cair para o lado, tropeçar. Testemunhou os primeiros desconfortos, as grandes dúvidas dos limites da normalidade e contestou até que ponto garantiria a sua própria lucidez.

E sem qualquer abecedário, estávamos ali numa nova realidade por vezes assustadora, outras pulsátil, em que trocamos longos discursos mesmo sem dizer uma palavra e li nos seus olhos a hesitação do “e agora?”

E aquela hora você começou a me formar, deixando que eu me modelasse. Naquela hora você me influenciou, embora fosse eu quem decidisse ao fim. Naquela hora você criou um roteiro, mas deixou que eu entrasse em cena como estrela, sendo sempre coadjuvante. Naquela hora você me deixou seguir, desprendendo-se de minhas mãos, sem, no entanto, desconectar-se de mim.

Sei que travou uma luta contínua para se renovar, para melhor lapidar esse novo nome que ganhou. Mãe.

Então, agora sou eu que a chamo. Para sempre.

Na trilha

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“Levante-se e vá ver o sol, tomar um banho de mar ou cachoeira, buscar um amanhã melhor. O amanhã se busca hoje, agora!”

Vanessa da Mata

Imagine o seguinte cenário: você está de férias, olhos flamejando de tanto prazer em passear na companhia de um filho pós-desfralde e outro aos 5 anos, em plena pré-adolescência. Imagine ainda que você está em um dia especial de obstipação crônica, cólica menstrual e banhada por um mar vermelho impetuoso e ávido por transbordar pelo biquíni a qualquer hora.

Qual seria o melhor programa para um dia tônico como esse? Continuar lendo

Quatro anos de uma alma antiga

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“Mãe é aquela que sofre pelos filhos e marido,
é aquela que morre com a alma em sorriso.
Mãe é tudo na vida porque ela é quem nos dá
todo o afeto de amiga e os ensinamentos para a vida.
Mãe é amor, é fogo e paixão,
ela é o calor de todo coração.
Mãe nos ensina a amar o próximo,
ela nos dedica todo o seu amor e tempo, óbvio…”

Essa parte do ‘óbvio’ foi somente uma tentativa desajeitada de alguém rimar às pressas o poema de dia das mães, mas o texto é antigo, fora usado numa apresentação em 1989, terceira série, ela bem se lembrava de enunciá-lo aos berros, com  a mãe na platéia, como se só a sua voz restrugisse no pátio, em dia de homenagem. Os versos triviais não foram desaprendidos por quase trinta anos e ali na garganta se alojaram, quando tornou-se mãe, prontos para denunciarem como também ela queria ser condecorada, daquele mesmo jeito, com tanta exclamação.

Não via a hora que ele proferisse suas primeiras palavras, mesmo que não fosse ‘mamãe’ ou algo semelhante, bem sabia que não seria, pessimista que se fazia. Não foi mesmo, estava certa, demorou pouco mais de dois anos para reconhecê-la pelo nome, aos olhos de terceiros. Mas ela, apesar de tanto desejar ouvir a palavrinha, não poderia conjecturar que o termo ‘mãe’ seria pequeno demais para a profusão de sentimentos que viria a seguir. Continuar lendo