Aos nossos crimes inexplicáveis

Algumas vezes é um tijolo que a vida lança na nossa cabeça. Outras vezes, a vida passa longe dessas transgressões e, no entanto, quem nos acena é a morte, com toda sua criminalidade.

– Tia, você vai ficar comigo?

Enquanto atendia em ritmo aventureiro na segunda-feira à noite de um pronto atendimento em pediatria, fui chamada para avaliar uma criança na sala de emergência, mais conhecida como sala de medicação, já que era raro algo de muita gravidade chegar ao nosso plantão.

Na maca, um menino de 5 anos de cílios gigantes, grau importante de irritabilidade, com palidez e gemência era o motivo de eu estar ali, numa apresentação típica de um quadro de choque séptico. A mãe, com o desespero Continuar lendo

Alguém que eu amo irá partir

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Alguém que eu amo irá partir. Morrer. Desencarnar. Arrefecer. Abotoar o paletó. Expirar. A palavra diverge de boca a boca, mas o significado não destoa, a relevância é a mesma: alguém que eu amo chegará ao fim.

Quantos deles, não saberei, pois também haverá a ocasião de eu me findar dessa esfera e tanto menos saberia a sequência dessa fila, velha ordem mundial. Mas, como improvisos sempre são comuns na história de cada um, finjo que vou além, que carregarei esses infortúnios e tantas lágrimas despejarei.

Então esse alguém se irá e o que fazer do amor remanescente? Esse tipo de amor que não encurta na ausência, não se abrevia pela falta do abraço, pela omissão do olhar; esse tipo de amor que dispensa comentários ou curtidas em redes sociais e que tampouco se nutre de mensagens de celular. Esse tipo de amor que sobrevive porque está impregnado no peito e não vai sair, já que seu lugar é mesmo lá. O que fazer desse amor que não pode ser deportado?

A perda de quem foi tem prazo para acabar, só o amor é imortal. Guardo comigo, em grito escancarado ou num silêncio que concilia os dias, todo o amor com seus laivos de pesar.

Pois se alguém que eu amo demasiadamente – que fez do amor morada em minha alma – não puder mais estar ao alcance de minha existência, como fico eu, eu que aqui fiquei, sem direito de escolha?