A menina Paixão

Fica-se louco quando ela se abeira.

Essa menina Paixão é de uma insanidade! Má companhia, inconsequente, faz circunvoluções na rotina e não deixa ninguém dormir, produzir, comer, serenar. Companhia indesejável, vá para longe de mim!

Ela é amiga da dor, parente bem próxima da falta de sentido e só sabe agir em escala exponencial, tudo é superestimado quando a menina Paixão se aproxima, e ela não permite nem que a gente pertença a si mesmo.

Deixa em cacos, aos milhares deles.

Com um método de inserção moderno e altamente eficaz, eis que ela transforma o pensamento: deixa uma única imagem emoldurando todas as paredes da mente, imensamente, seja imenso o espaço que houver, sem hora para terminar, sem limites para demarcar, como uma decoração monotemática, monótona e insubstituível, e não há fuga de si que a desconecte.

Perde-se o domínio quando a menina chega.

Então você está comendo, dormindo, servindo, vivendo e de repente ela aparece e cria uma desordem de pensar, de cobiçar, de não saber silenciar. Faz arder quando há distância, queimar quando presença há.

Cria cegos, por fim.

E diante de tal cegueira, a menina Paixão te faz inteiro abandonar-se dentro de um par de olhos, como que mergulhado em duas esferas, em viagem interplanetária. Vai e volta de um orbe a outro, mas não escorrega, não se perde pela tangente, segue o plano, mas perde um pouco a linha, pois viagem assim termina mal, quando termina…

Porque a menina Paixão não vem em goles suaves, quietinha, sendo anunciada com discrição. Ela já aparece gritando do telhado, com velocidade de som, de passos, tirando qualquer um da sua ocupação, para que ela reine absoluta. E daí que há tanto o que fazer? Ela se espalha sem pressa de ir, mas com urgência de permanecer, de ocupar as superfícies, os poros; de amplificar os sons, de prensar todos os odores na ponta do nariz, para que fiquem eles aglutinados na memória e não possam ser expulsos nem sob medidas brutas.

Tenta-se ser esperto, burlar, mas a menina Paixão é sorrateira, sabe todos os seus planos e não se deixa enganar; de propósito, cria alguns embustes, e quando se vê, as mãos estão amarradas com corda e nó de marinheiro, os pés só andam no mesmo sentido e direção, e então, não é possível escapar, nada há para fazer.

A não ser se entregar a essa menina.

 

Estavam dispostos a morrer de paixão

“O amor mostra ao homem como é que ele deveria ser sempre. ”

(Tchekhov)

Era um modo de olhar que arruinava todas as crenças; um toque ao rosto que adejava os copos da mesa; as pernas se tocavam sutilmente, mas solapavam as estruturas e não se podia mais ficar em pé. O jeito arguto de retirar uma mecha de cabelo do rosto dela e recolocar em seu devido lugar congelava as horas.

Ambos se reuniam em prelúdio.

Rotineiramente pediam-se com algum desespero na voz, em gradações afinadas de reconhecimento. Esqueciam-se das palavras, mas se pediam sem se doar finalmente.

Porém tinham seus meios.

Estavam dispostos a morrer de paixão, caso não perecessem antes pelo dito maldito, pelo sentido mal-acabado, do encontro falido.

Dispostos a se condensar da tocante paixão, tocavam-se com as pontas dos dedos. E em pensamento, tudo ao redor cimentava, menos o amor que lhes era fuga e fluido e não era só deles.

Então esperavam, a fim de voltarem ao começo, por fim.

Lista de costumes a atrair para a vida

Ali estava a vida, invocando seu direito de ser extraordinariamente vivida, mesmo com contrariedades e desvios extrínsecos às vontades. Ela só queria totalidade, só queria muitas brechas e fissuras, só queria passe livre para o que faz bem, para o que deve se aproximar; queria espaço de sobra para o que precisa estacionar por aqui.

Então, por favor, vida, traga a presença de tudo que for fundamental, nada menos do que isso.

 

E são necessários sorrisos aos montes: cheios, claros, quase a contornar o rosto todo. São necessários sorrisos de bom dia, que desmontem as tristezas, que reestruturem a alma, que façam valer as horas, que motivem outros sorrisos em retribuição e para dar continuidade, sem muito esforço, sem forçar nada, mas com toda a força.

Cortesias nos mais variados graus são absolutamente bem recebidas. A preocupação com a humanidade pode até envolver frases e fotos de efeito, compartilhadas em redes sociais, mas não se pode esquecer que logo ali ao lado, há um ser humano que merece simpatias, respeito e todo o cuidado no trato.

Abraços são mais do que requisitados sempre. Abraços são disputadíssimos e esfuziam os dias, principalmente quando duram segundos intermináveis e podem ser repetidos, sem justificativa alguma.

 

Eliminar pendências, dar “conferes” em listas de tarefas, solucionar velhos conflitos e dissolver mal-entendidos, tudo isso é prioridade na melhoria dos dias e a vida pede urgência nesse item. Porque ela exige leveza e é mais feliz quando dorme as noites com suavidade.

Relaxar a mente é exercício diário, permitindo que a inspiração surpreenda seu momento, eternize-o, a ponto de despertar tesouros antigos e desconhecidos.

 

Também ela, a vida, impõe coragem e faz andar mesmo com medo, faz criar com despudor e traz liberdade para a imperfeição. Cabe tremer de medo, desde que não pare, cabe deixar a imaginação fluir, desde que com verdade, cabe errar desde que não se desista.

 

Verdade! A vida inspira verdade. É no olhar, em uma frase, em um passo a passo pareado, na certeza do acolhimento, na verdade de cada gesto desses que o consequente estremecimento traz a catarse dos dias.

 

Há, em grande escala, a cobiça pela música, pela literatura: o que se lê, o que se escreve, o que se escuta, o que se canta faz a mente alçar um mergulho bem próximo ao infinito e retornar é incumbência dolorida, porém renovadora, pois quem foi já é outro quando volta.

 

 

Outra companhia imprescindível é a paixão pelo real e pelo irreal, a paixão por tudo que mova, que impeça de ficar estagnado na mesma poltrona, com a cabeça virada sempre na mesma posição. Que a paixão faça moradia onde quer que se esgueirem os pés, que toque sem sutileza, pois também ardor é bem-vindo.

 

E, por fim, o que tornaria todas as demais unidades possíveis, é premente acreditar. Acreditar muito, acreditar um tantinho, desacreditar até por instantes para acreditar em seguida com mais amplitude…não importa o nível, não importa o direcionamento, não importa a esfera, mas que se acredite como base, como ponto de partida. Que se acredite com sede, com o corpo, com o espírito; que se acredite no que há fora, que a crença esteja somente lá dentro; quer seja chama tímida de vela, quer seja fé incendiável; que se creia no todo, que se confie nas partes. E ao acreditar, sem sofrimento, a vida se estabelece em direito e, a partir daí, será indubitavelmente vivida no hoje, sem promessas para o depois.