Melancolia em versos

Na cozinha, o café esfria,
o pão com manteiga endurece
e a cabeça rodopia,
não sei bem o que acontece.
E nem sei o que fazer com essa monotonia.

A água da chuva já secou,
o universo despencou
e os escombros persistem morando no chão da sala,
ocultando aquela dor que ainda resvala
e não sei o que fazer com aquela fotografia.

As frases ditas se perderam em castigo.
As palavras não ditas se esconderam em abrigo.
A ausência se incorporou à minha nudez,
enfatizando os meus quilômetros e quilômetros de insensatez
e me pergunto o que fazer ao final do dia?

Viro para o canto: olhos abertos, lembranças insanas;
desencanto, caminhos incertos
(e a inércia se espalhando na cama)
e a cabeça leviana que olha para trás
e, por enquanto,
não é capaz de abandonar o passado ainda em vigília.

Procuro, então, uma sombra
mas é sol que fulgura.
Encaro o espelho em afronta,
Mas só enxergo tal imagem obscura.
E eu realmente não sei o que fazer
depois que a saudade distancia.

Sucumbir, mas retornar.
Definir e, enfim, praticar.
Mas o tempo estagna e a tristeza irradia.

Reconhecer é recomeçar,
surpreender ao se revelar
nesses versos em melancolia.

 

Definições

“A poesia não se entrega a quem a define.”

(Mario Quintana)

 

Defina. Era esse seu imperativo constante.

Antes de se expor, com o intuito de saber exatamente de que era feito o piso onde acabara de sopear, ela lançava o pedido da definição.

– Eu te amo – dizia alguém próximo.

Defina ‘amor’.

– Fiquei um pouco chateado com você.

Defina ‘chateado’.

– Não sei se gosto desses planos.

Defina ‘não saber’.

– Você tem que ler esse livro. Ele é impressionante!

Defina ‘impressionante’.

Era serviçal do definir. Às vezes recebia a explicação esperada e se contentava até a próxima brecha, mas costume era ignorarem, mudarem de assunto, encararem seus modos maçantes como um convite a deixá-la sozinha.

Mas era interesse genuíno por quem estivesse ao seu redor. Pedia que descrevessem suas metas, sonhos, vontades; que definissem suas histórias em algumas frases, seus medos, que descrevessem a si mesmos. E quem não gosta de falar de si, quem não quer dividir seus sonhos, quem não precisa contar suas histórias? E ela os ouviria.

Até que se apaixonou. E se fixou naquela vida ao lado da sua, que parecia interminável e parte de si; que parecia sua e, ao mesmo tempo, proclamava ser conquistada todos os dias. E esqueceu de pensar na interpretação das coisas, pois começou a viver o significado das coisas.

Naquele final de tarde, ela foi, no entanto, testada:

– Descreva o que você enxerga em meus olhos – ele pediu, com uma pitada de zombaria.

Ele pedia da forma mais escancarada que ela retratasse o indefinível, como quem imortaliza um momento que não tem e nem terá nome, instante em que se perde e se esquece de retornar.

Quero seus olhos em espera, despidos e abertos diante dos meus, quero seu olhar inteiro em mim, rasgando a pele por onde passa…quero seus olhos me empurrando com seu ímpeto inegável e estarei disposta a mergulhar nesse abismo…em queda livre.

A poesia súbita não surgiu. Riu da tentativa de improviso, mas não progrediu. Ficou a olhar e olhar até o sol se esconder da sua janela e a brisa que a noite trouxe alarmar a hora da separação.

Não articulou seu lirismo, nem pela boca, nem em papel, pois lábios se colaram e outras definições silenciosas se instituíram. Entre um beijo e outro, murmúrios acanhados se ouviram.

– Ah, eu não sei, eu não sei…

Duetos: A boneca esquecida

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Mais um encontro para a série “Duetos”, oportunidade criada para deixar eclodir a vontade de conhecer o outro, de desafiar-me a novas formas de escrita e para me aproximar daqueles que cultivam as palavras como companhia predileta, sejam escritores, devaneadores ou parceiros na vida que gostem de traduzir em verbos suas sensações.

Fer e eu (2)Hoje a parceria é com Fernanda Camargo, que além de ser minha irmã, é Doutora em Matemática, leitora voraz e cúmplice na tarefa de viver. A máxima de sua vida é:

“A maior felicidade é quando a pessoa sabe porque é que se é infeliz” (Dostoiévski)

 

O texto que escrevemos juntas Continuar lendo

Duetos: A-DOR-AR

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Criei esse espaço “Duetos” para deixar eclodir a vontade de conhecer o outro, de desafiar-me a novas formas de escrita e para me aproximar daqueles que cultivam as palavras como companhia predileta, sejam escritores, devaneadores ou parceiros na vida que gostem de traduzir em verbos suas sensações.

O resultado está me trazendo um contentamento místico e a certeza de que escrever é o que quero fazer para o resto da vida.

Começaremos com ele, o escritor Hang Ferrero, autor do blog O Ponto Afinal, cujos poemas tem feito a diferença nos meus dias. Roubo da sua página essa sublime descrição: Continuar lendo

Inverno

"O inverno cobre minha cabeça, mas uma eterna primavera vive em meu coração." (Victor Hugo)

“O inverno cobre minha cabeça, mas uma eterna primavera vive em meu coração.”
(Victor Hugo)

Sala vazia:
um oculto desejo viajando calado
por entre corpos e soluços
que aguardam sua hora

Hora perdida:
palavras jogadas em rostos que não compreendem,
não vêem a solidão,
não sentem o caos.
E seguem mesmo sem querer entender.

Sol que se apaga,
apesar da canção que insiste em nascer.
Amores suicidas encontrados em becos:
somente contrastes
num inverno sem luz.

Imperativo

GentequeleePoesia

Chora,
e inunda metade de teus abismos.
Mente,
como se tudo fosse descrença.
Invade
cada fortaleza dessa existência.
Salta
por telhas de fascinação.
Nega
teus suspiros de prazer.
Sopra
cada frase de outrora
para longe.

Vibra,
e bebe o drinque da vitória.
Suaviza
meus sonhos com o toque dos teus desejos.
Apedreja
as sobras dos meus enganos.
Penetra
nos caminhos estrelados que construí para ti.
Finge
que teu rosto é somente sorriso.
Adormece
com os lamentos das preces
para jamais acordar.

As armas

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“Há vitórias que exaltam, outras que corrompem; derrotas que matam, outras que despertam.” Antoine de Saint-Exupéry

Tínhamos um plano de nos virarmos pelo avesso
e a idéia de ser mais irradiava dentro de mim.
Mas você largou as armas e buscou sonhos confessos
e esqueceu que no combate não há tanto risco assim.

Sem armas, sem canções, encarou seus frágeis medos
e deixou-me atrás da porta a espreitar o seu delírio.
Seguiu desertos rumos e ignorou os meus apelos
na certeza de ser só com seu distante equilíbrio.

Preparou-se, então, para a luta contra seus vilões internos
e contemplou imagens vãs de um sucesso leviano.
Mas ao caçar os seus limites e encontrar os seus infernos,
perdeu-se nos seus sonhos, perdeu-se em reais enganos.

Agora resta a dúvida nas paixões que não preenchem
todo o triunfo garantido quando estava ao meu lado.
E o temor que alucina suas noites de suspiros
cala ainda o meu grito, evitando despertá-lo.

Solidão

Há um raio de sol que permeia de solidão os arredores. Guiados pelo cansaço, os homens passam na frente do prédio, sem apego ao momento. Há poucas horas, cadáveres espreitavam entediados nossas primeiras descobertas. Nada é a certeza que nos condena. E, desprovidos de êxtase, corremos atrás de um sonho. Distante.

Tudo é poesia. Mesmorembrnt os restos de um corpo que já não responde por si mesmo. Eles passeiam pelos corredores, sobem e descem escadas e deixam, por onde passam, um rastro do seu desejo. Desejo que é sombra. Sem dono.

Poei Continuar lendo