PAREI DE SONHAR

Blecaute. Amanheceu. Cortinas cerradas. Motor desligado. Fim de show. Créditos finais.

O sonho acabou!

Com os olhos em alerta, a mente cismada e a turbulência dos dias, aqueles minutos dispersos deixaram de existir. Não tem sido possível, portanto, voar suspenso em balões e nem ter uma imagem mental toda azul, quase azul da cor do mar. A visão das estrelas ficou manchada, a porta permaneceu entreaberta, com ímpetos de bater com o vento e trancar-se por conta própria, o meu grande pequeno universo se encolheu muito além do que se enxergaria, pois a partir daquele dia eu não fui mais capaz de sonhar. Continuar lendo

Altas geleiras

Bem lá em cima do desfiladeiro, fez-se eco de suas palavras, atingindo penosamente meu universo: vontade de me crispar o mais que puder até desvanecer na paisagem e nada sobrar de mim, nada de meus erros, mentiras e brumas.

Estava tão ocupada em decidir quais partes de mim me fariam tão mais eu que não vi quando passou, escancarando suas verdades. Mas senti quando hesitou seu coração diante de mim, parou por instantes até compassar-se ao meu. Bateram juntos em inextricável segredo e já não soube a quem pertenciam. O gigante mundo, porém, não despertou de sua inocência e continuou a nos sorrir, imprudentemente.

Tinha tanta sede, tanta força, tanta náusea. Mas não morreria dessa sede e me enovelaria nas entranhas de dentro de mim; força se extinguiria. De amor não se morre. Do amor se perde. De amor se mata. Escapa.

Não quero te doer.

Não quero te partir.

Não quero te cuspir as frases nunca ditas.

Mas fiquemos de mãos dadas só mais um pouco, pois o dia urge e eu não quero sair. Fiquemos parados nesses lenitivos instantes que nos restam.

Antes que os corações ofendidos se poluam de fraudes e não se perdoem mais.

Antes que os ventos me soprem de volta às minhas altas geleiras.

Estou sozinha na noite e o silêncio é demais para mim.

Curtas

Nas alturas, o mundo fica um pouco maior aos meus olhos, um pouco menor ao meu alcance. Tenho tudo sob os pés. Mas o tudo é efêmero, o tudo deixa de ser quando se vai. Vai para não sei onde e talvez até continue sendo, mas não mais para mim. Olho para baixo e penso que tudo é meu, nada me satisfaz, mas me pertence nesses instantes fugidios. E sigo sem olhar para trás, deixando tudo para trás…

altura05


Há dores que articulação nenhuma de palavras pode decifrar. Não falo somente de lágrimas ou de uma disfarçada desconversa. Nem de uma poesia declamada em clima de ponto final. Trata-se da música cantada com desembaraço, falando de um coração magoado, de pais distantes. É o amparo de uma colega, que ao mesmo tempo, queixa-se das suas saudades. É a tristeza de ser só. São palavras confusas e um vestido vermelho, que inspira juventude e sedução. É a esperança no amanhã ou na hora seguinte. Ou a desesperança. É saber-se estranho, sem proferir tal expressão. Saber-se humano, sentir se humano, ser humano. Com todas as suas pulsões de morte e instintos de vida alternados. Uma vida cheia de reticências em encontros constantemente adiados.


Pardo o teu rosto
envenena-me as horas,
feito o dia que acaba,
como o relógio que pára.

Solidão

Há um raio de sol que permeia de solidão os arredores. Guiados pelo cansaço, os homens passam na frente do prédio, sem apego ao momento. Há poucas horas, cadáveres espreitavam entediados nossas primeiras descobertas. Nada é a certeza que nos condena. E, desprovidos de êxtase, corremos atrás de um sonho. Distante.

Tudo é poesia. Mesmorembrnt os restos de um corpo que já não responde por si mesmo. Eles passeiam pelos corredores, sobem e descem escadas e deixam, por onde passam, um rastro do seu desejo. Desejo que é sombra. Sem dono.

Poei Continuar lendo